Comunidade Shalom

Povos indígenas

Indígenas

Histórico

Ano após ano, na segunda quinzena de abril, milhares de crianças brasileiras saem das salas de aula com o rosto pintado e uma pena colocada no topo da cabeça: são as comemorações escolares para lembrar o Dia do Índio. Mas o contexto dessa data é muito mais do que a superficialidade de fantasias infantis.

O Dia do Índio no Brasil foi criado em 1943, por meio do decreto-lei 5.540, do presidente Getúlio Vargas. O dia 19 de abril foi escolhido por causa de um acontecimento ocorrido três anos antes. Em 1940 foi realizado no México o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, para o qual foram convidadas autoridades governamentais e líderes indígenas do continente. Estes, porém, não compareceram nos primeiros dias do evento; desconfiança e temor baseados em séculos de explorações, agressões, perseguições, traições e assassinatos por parte dos “homens brancos”. Entretanto os grandes líderes, após reunirem-se entre si, decidiram participar, por considerar o congresso um momento histórico.

O dia que resolveram aderir foi 19 de abril e a data virou um marco em toda a América.

A partir da instituição dessa data comemorativa, passou-se a realizar atividades de conscientização e estudo a respeito da realidade, da cultura e da história dos índios que vivem no Brasil, bem como daqueles que foram extintos pela ganância dos “conquistadores”. Apesar disso, continua havendo muita discriminação e desprezo pelos habitantes originais do nosso país. Desde 1986, comemora-se não só o dia, mas a Semana dos Povos Indígenas, tentando minimizar as diferenças através de atividades culturais e educativas. O sonho é que não exista mais a distinção “nós” e “eles”, mas que consideremos, a todos, brasileiros iguais em direitos e dignidade.

Fonte: mundojovem.com.br

Povos indígenasCarta de Seattle

Palavras do chefe índio Seattle, em 1855, para o então presidente dos Estados Unidos, em resposta à sua oferta de compra das terras indígenas:

“O Presidente declarou em Washington que deseja comprar a nossa terra. Mas como se há de comprar ou vender o céu, a terra? Tal idéia é estranha para nós. Se não possuímos a presença do ar e o brilho da água, como se há de comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha reluzente de pinheiro. Cada praia arenosa. Cada neblina nos bosques sombrios. Cada campina. Cada inseto que zumbe. Tudo isso é sagrado na memória e na experiência do meu povo.

Conhecemos a seiva que corre pelas árvores, tal como conhecemos o sangue que corre pelas nossas veias. Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso, o gamo, a grande água são nossos irmãos. Os picos rochosos, as essências do prado, o calor do corpo do pônei e o homem, todos pertence à mesma família.

A água brilhante que se escoa nos ribeiros e nos rios não é somente água, mas o sangue dos nossos ancestrais. Se lhes vendermos a nossa terra, você terá de lembrar-se de que ela é sagrada.

Cada reflexo que, como um fantasma, aparece na límpida água dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz do pai do meu pai. Os rios são nossos irmãos. Eles aplacam a nossa sede, transportam as nossas canoas e alimentam os nossos filhos. Por isso você deve ter para com os rios a benevolência que teria para com qualquer irmão.

Se lhes vendermos a nossa terra, lembre-se de que o ar nos é precioso. Lembre-se de que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso avô seu primeiro alento, recebe também seu último suspiro.

O vento dá aos nossos filhos o espírto da vida. Por isso, se lhes vendermos a nossa terra, você precisará mantê-la à parte, como algo sagrado, como um lugar aonde um homem pode ir expor-se ao vento, que é perfumado pelas flores do prado.

Ensinará você, a seus filhos, o que nós ensinamos ao nossos filhos, que a terra é nossa mãe?

O que acontece à terra, acontece aos filhos da terra. Todas as coisas estão ligadas, como o sangue que nos une a todos.

O homem não tece a teia da vida nele, ele é apenas um fio. O que ele faz para a teia, faz para si mesmo.

Uma coisa nós sabemos: nosso Deus é também o seu Deus. A terra lhe é preciosa e, danificar a terra, é desprezar o seu criador.

O destino de vocês é um mistério para nós. O que acontecerá quando todos os búfalos tiverem sido mortos? Os cavalos selvagens, domados? O que acontecerá quando todos os cantos secretos da floresta estiverem impregnados do cheiro de muitos homens, e a vista das sazonadas colinas estiver escondida pelos fios que falam? Onde estará a brenha? Desapareceu. Onde estará a águia? Desapareceu.

E o que é dizer adeus ao pônei veloz e à caça, o fim do viver do começo do sobreviver?

Quando o último pele-vermelha tiver desaparecido de sua selva e sua lembrança for apenas a sombra de uma nuvem movendo-se por sobre a pradaria, ainda estarão aqui estas praias e estas florestas? Restará ainda algo do espírito do meu povo?

Nós amamos essa terra tal como um recém-nascido ama as batidas do coração de sua mãe. Por isso, se lhe vendermos a nossa terra, ame-a como nós a temos amado. Preocupe-se com ela como nós nos temos preocupado. Tenha em mente a lembrança da terra tal como ela for quando você a receber.

Preserve a terra para todas as crianças e ame-a como Deus ama a todos nós.

Assim como nós somos parte da terra, também você é parte dela. Esta terra é preciosa para nós e também para você.

Uma coisa nós sabemos: só há um Deus. Nenhum homem, seja pele-vermelha ou branco, pode viver isolado. Afinal, somos todos irmãos.”

Povos indígenas

A causa indígena é de todos

A Semana dos Povos Indígenas, celebrada no mês de abril, convida a uma aproximação deste mundo. Os livros de história falam em descoberta do Novo Mundo e, mais recentemente, fala-se em conquista. Penso que o mundo dos povos indígenas, até hoje, não foi descoberto nem conquistado.

Quando falamos em índios, logo pensamos em gente nua na mata, ou então em pessoas pobres pedindo esmola nas cidades. Nada de mais errado! Primeiramente não existem índios, mas povos, isto é, conjunto de pessoas unidas por uma história, uma cultura, uma língua comuns que as diferenciam de outras. São povos nativos ou originários, porque foram os primeiros habitantes deste continente.

Uma nova consciência

“Os povos indígenas da América e do mundo, fomos, nos últimos 500 anos, completamente desconhecidos pelas sociedades dominantes. Ninguém nos ouvia. Não olhavam para o nosso rosto, não lembravam de nosso nome e nem o mencionavam. Mas nós somos o vínculo mais seguro da população atual com suas raízes ancestrais.”

A consciência de possuir uma riqueza única, presente de Deus e dos antepassados, cresceu entre os povos indígenas. A sociedade não-índia passou do desconhecimento e desprezo à admiração. Cresceu a consciência de que somos uma nação pluriétnica. A Constituição do Brasil de 1988, em seu artigo 231, reconhece aos povos indígenas “sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”.

Nas Américas há mais de 50 milhões de indígenas, inclusive com uma população majoritária em alguns países como Guatemala e Bolívia. O Brasil tem uma população indígena pequena em termos percentuais, porém a riqueza cultural é grande: em nosso país são cerca de 220 povos indígenas, com aproximadamente 180 línguas originais ainda faladas. Há povos livres, sem contato com a sociedade brasileira, e grande número de indígenas morando nas cidades. Há índio caçador e coletor e índio universitário, advogado, médico.

Vamos adentrar este mundo desconhecido e tão perto de nós. Seria bom conhecer, direta ou indiretamente, os povos que moram no seu estado. Washington Novaes fez isso e escreveu: “Entender o índio, entender sua cultura e respeitá-lo, implica despir-nos desta nossa civilização. Porque o encontro com o índio é um mergulho em outro espaço e outro tempo. Um espaço aberto de céu e terra, água e fogo. Um espaço colorido e pródigo, povoado pelos animais, vegetais e minerais e espíritos, um tempo prodigiosamente mais lento que permite consumir meses para polir o arco e aguçar a flecha. Tempo para varar a noite dançando, tempo para receber o filho que nasce ou despedir-se do ancestral que morre; tempo para rir e tempo para chorar, cantar e dançar, plantar e colher”.

Novos desafios

Os povos indígenas, pela maneira de viver e pensar, são denúncia e proposta de alternativas. Eles incomodam os grandes, donos dos meios de comunicação, do mercado e do poder. Combatem os povos indígenas com a violência: externa e interna. Apesar da atual Constituição, as terras indígenas são invadidas, suas lideranças assassinadas, seus filhos discriminados. E quando eles reagem, dentro de seus direitos, são acusados de criminosos, de empecilhos do progresso.

Em outras situações, a metodologia é cooptar as lideranças, oferecendo presentes e vantagens. O maior contato com as cidades, a chegada da televisão, o aumento do dinheiro nas aldeias são novas realidades que enfraquecem a resistência indígena.

Os povos indígenas têm duas fontes de força e energia: as raízes de suas culturas que recebem uma energia acumulada por séculos, e sua fé com suas teologias ligadas ao Deus da vida; ao relacionamento com a Mãe Terra.

Nós e os povos indígenas temos interesses em comum. Como amantes da vida, estamos preocupados com o futuro da Amazônia e do planeta; como cristãos, acreditamos no Reino de justiça, respeito e partilha; como pessoas de uma nova época, acreditamos no diálogo, no pluralismo, na convivência das diferenças. Os povos indígenas são os nossos mestres e aliados.

Questões para debate:

  1. Quais são os preconceitos que ainda existem entre nós em relação aos povos indígenas?
  2. Por que a civilização branca insiste em impor sua cultura aos povos indígenas?
  3. Quais são os valores culturais que deveríamos aprender com os povos indígenas?

Nello Ruffaldi
Padre, missionário do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), diretor da revista Mensageiro e do programa radiofônico Potyrõ . Belém, PA.
ruffaldi.nello@pime.org


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