Esta pergunta coloca-nos no campo da pedagogia. Ela está relacionada com a maneira de trabalhar.
A pedagogia é constituída por um conjunto de princípios que orientam a maneira de desenvolver ação, uma filosofia de ação.
Para que a pedagogia possa ser posta em prática, nós precisamos ter uma metodologia. A metodologia compõe-se fundamentalmente de planejamento e técnicas.
As técnicas são instrumentos simples ao serviço da pedagogia.
A nossa pedagogia baseia-se na Educação Libertadora: parte da realidade da vida através do processo da Ação-Reflexão-Ação. Por isso, esta pedagogia tem as seguintes características:
Parte do real, dos fatos, e tira conclusões a partir deles. Não tem como ponto de partida os livros ou as teorias, mas os acontecimentos da vida. Partindo dos acontecimentos, fazemos, através da reflexão uma caminhada do real para o abstrato, do disperso para o organizado, do particular para o geral. Esta passagem do particular para o geral é um ato altamente educativo; ele se processa através da reflexão e permite que a pessoa se torne livre diante dos acontecimentos particulares. Ela começa a estabelecer relações entre os acontecimentos, a descobrir a lógica da vida, a conhecer o que está errado e o que está certo e, muito importante, começa a descobrir as causas dos acontecimentos, da opressão, da fome, da pobreza, da corrupção ... aumentando a compreensão do mundo e a capacidade de o encarar conscientemente.
A Educação Libertadora faz-se em grupo, como povo, como comunidade. O chão da reflexão é a vida comunitária e o processo de transformação tem sempre a ver com o grupo. Nasce daqui a pessoa solidária, fraterna. Os problemas são comuns e cada pessoa se descobre igual a tantas outras que caminham ao lado dela. Surge a consciência de ser povo, porque as situações são semelhantes e as causas as mesmas.
A descoberta em grupo faz-se através do diálogo, da participação, da transparência, da comunicação verdadeira. Não há caminhada de grupo se não houver aumento de confiança entre as pessoas e reformulação constante das metas; isto só se fará pela verdade, respeito e valorização de todos.
Fazemos processo histórico. Cada grupo vai assumindo posturas frente à vida, fazendo suas marcas na História. Os jovens não esquecem as formas da caminhada do seu grupo, pois o processo é feito com a participação de todos. O planejamento e as avaliações feitas em comum criam a mística da transformação. Os grupos se habituam a dar passos concretos, rumo aos objetivos estabelecidos.
Um grupo torna-se forte quando consegue caminhar sobre as próprias pernas. Os jovens aprendem a fazer e a ser.
A pedagogia da Ação-Reflexão-Ação exige planejamento. Ter um planejamento claro, realista, é condição de um grupo maduro. De outro modo, o grupo vira anárquico. As avaliações são feitas tendo em frente os objetivos e as metas traçadas pelo grupo.
Caminhar juntos exige estar de acordo sobre o futuro; de outro modo o grupo torna-se domínio de um ou dois ‘iluminados’.
Somos um Movimento de Evangelização. Nosso objetivo é evangelizar, sobretudo os jovens. Por isso, não podemos esquecer que, para nós, a ação deve ser iluminada pela Palavra de Deus, pela palavra da Igreja e pela palavra da ciência.
Acreditamos na Palavra de Deus e da Igreja como fontes de consciência da Humanidade. Por isso, para que os jovens vão crescendo no projeto da vida é necessário que a Palavra de Deus e da Igreja se coloquem na sua história. A palavra da ciência também é importante, porque ela nos dá a compreensão da sociedade e da realidade. Cabe á Palavra de Deus e da Igreja apresentar à ciência o sentido ético.
Com a iluminação deste tripé, vamos caminhando sendo interpelados tanto pela Palavra de Deus como pelo conhecimento humano. Não haverá evangelização se a pessoa de Jesus, sua vida, morte e ressurreição não forem anunciados.
Dentro do processo de Educação Libertadora é muito importante a pessoa do animador. Este tem a missão de colocar o grupo em situação de caminhar e de fazer opções. Ele é alguém que caminha com o grupo.
Pode ser que o animador tenha que interpelar o grupo, mesmo não tendo ninguém dentro deste que esteja de acordo com ele. O animador deve ter uma grande capacidade de diálogo, de empatia, de acolhimento, de interpelação. Ele não está acima do grupo, caminha e aprende com o grupo. Devolve a imagem ao grupo. Aceita a mudança. Favorece o consenso. Reflete com o grupo sobre êxitos e fracassos, na avaliação. Por isso, o animador “prepara outros animadores, desenvolve o espírito de unidade, semeia ideais de superação, fortalece a organização, trabalha com todos e para todos, para descobrir a meta (utopia) e, partindo dela estabelecer o projeto histórico, porque acredita nos outros e respeita a sua dignidade” (Animador de uma Comunidade Organizada).
A interpelação é o método que o animador tem para colocar o grupo a pensar. É através de perguntas que questionam as pessoas, que o animador desperta, mexe, inquieta, engaja o ser das pessoas, de modo que crie uma vontade de transformação dentro das pessoas.
A interpelação é uma pergunta que exige resposta comprometida; não é qualquer pergunta.
No fim de qualquer dinâmica, de qualquer ação, em qualquer avaliação e programação, é importante a interpelação do animador, para fazer o grupo despertar para a transformação de sua realidade.
Qualquer atitude, palavra, ação, tem um significado.
A omissão também tem um significado. Tudo tem um significado pedagógico.
Portanto, o importante é “ser uma coisa boa”. Quem não souber como fazer precisa descobrir um instrumento teórico e prático dentro do qual trabalhe. Ninguém consegue escapar à necessidade de ter formação pedagógica de base que lhe dê segurança quanto aos tipos de Pessoa, Sociedade e Igreja que quer construir.
Queremos construir uma pessoa, sociedade e Igreja conscientizadas, onde as pessoas saibam viver em liberdade, como sujeitos da História, tendo por utopia a construção do Reino de Deus.
A nossa pedagogia procura criar o “solidarismo humanista”.
Não temos uma linha de trabalho iluminista, dedutiva, que coloca a força da pessoa nas idéias, ou numa cabeça que seja estudada; também não optamos pelo trabalho sem mais, de mentalidade capitalista, onde a pessoa vale só porque produz, e se torna peça de uma máquina opressora asfixiadora.
Optamos pelo encontro de pessoas, contra as tendências da sociedade moderna, onde as relações humanas são quebradas e superficiais.
Para a nossa maneira de trabalhar, tem importância fundamental o valor da pessoa; por isso, a nossa máxima é “Eu falo, você me escuta, logo, nós existimos”, em grupo, em sociedade, para a dignidade e a libertação das pessoas.
Trabalhamos muito com dinâmicas de grupo. Elas têm por finalidade serem um instrumento de participação, de diálogo, de desenvolvimento pessoal e comunitário. São um meio de gerar a realidade dentro do grupo, produzindo um comportamento no grupo.
Partindo da dinâmica se caminha pela interpelação para que o grupo reflita sobre a ação que foi a dinâmica, e seja depois capaz de tirar conclusões e fazer opções em ordem à ação.
É necessário saber o objetivo das dinâmicas, para estas não serem usadas inadequadamente.
As dinâmicas são instrumentos para uma educação ativa, criativa, participativa, onde todos se envolvem e descobrem juntos os valores que querem para o grupo.
Uma educação sem valores é uma educação perdida.
Os valores - naturais e auto transcendentes - estão presentes no sentido da pedagogia. Sempre nos devemos perguntar que valores estão puxando a nossa ação, dando sentido à nossa vida. Amizade, solidariedade, trabalho, participação, dignidade, igualdade, liberdade, estima,justiça, misericórdia, acolhimento, perdão, escuta, compreensão, cidadania, partilha, democracia, paz...; Fé, Evangelho, evangelização, Reino de Deus, eucaristia, oração, seguimento de Jesus, Jesus Cristo, vida em comunidade, Amor, Palavra de Deus, discipulado, imagem e semelhança de Deus, serviço... são tantos os valores que constituem a pessoa humana. A origem dos valores está em Deus, por isso, os valores são valores em todas as sociedades, em todas as épocas da História, em todas as culturas, em qualquer lugar da terra.
Este é o objetivo da pedagogia por que optamos: amar e trabalhar. Ser pessoa confiante, feliz, consciente de seus limites e capacidades, e, ao mesmo tempo, pessoa que sabe fazer, que executa, que atua. Assim dizemos que o Movimento é escola para a vida.
O principal problema que se nos coloca é como fazer o jovem viver como imagem e semelhança de Deus. E, neste campo, temos encontrado na Educação Libertadora, adaptada a nossa realidade, um modo de articular o amor entre os homens e de lhes devolver a sua verdadeira imagem, como seres criativos, participativos, e com a responsabilidade de serem sujeitos da História, para que à luz do Evangelho a façam um hino de liberdade.
A Educação Libertadora concebe e desenvolve o critério do homem como sujeito, em sociedade e no mundo, e fundida com a fé, torna-se uma prática pedagógica atual, para a concepção do homem ao nível das ciências e da Bíblia. A Educação Libertadora tem nos feito entender e ajudado a completar a Incarnação do Filho de Deus na História, porque sua prática permite o processo de divinização do homem e do mundo dentro do próprio ser de Deus que caminha, suportando a lentidão da caminhada numa relação de amor. O homem que tem Deus inscrito na sua consciência deverá desabrochar para Ele, descobrindo-se a si mesmo, abraçando os outros homens, e fazendo a construção ascendente de um novo mundo onde Deus reine.
A Educação Libertadora, partindo da realidade e iluminando-a com a palavra de Deus e da Igreja, sempre no processo de Ação-Reflexão-Ação, não favorece nem a existência de materialismos nem a existência de espiritualismos desencarnados, mas antes, permite o assumir de uma espiritualidade encarnada, fecunda, ativa, sentido-se a pessoa inserida na sua realidade e na realidade utópica que lhe é dada pelo Evangelho. A fé torna-se uma ação viva e a pessoa aprende a fazer opções, a superar e transformar.