Pedagogia

Dimensões da Educação Integral

O nosso mundo é complexo e complicado. Violência, competição, ausência de valores, descompromisso com os ideais, as tradições quebradas e as ligações afetivas ausentes, cada um pensando que é dono do seu nariz, e ao fim ao cabo, sem ser dono de nada. A maioria das pessoas são dominadas pelo ambiente e vivem repetindo seus vícios e suas atitudes: consumismo,economicismo, prazer, imediatismo.

E todos pensamos que somos livres, mas será que somos livres?

Como fazer a pessoa ser pessoa mesmo, na liberdade, responsabilidade e criatividade, realizando o seu tempo em solidariedade e cheia de ânimo interior? A maioria das pessoas vive repetindo o passado. Não chega a tomar a vida nas mãos e a caminhar como pessoa livre e criadora, de uma maneira nova, própria de si mesma, ou seja, as pessoas vivem como se não fossem pessoas e não se fazendo pessoas.

Daí que a educação de um jovem é uma tarefa ampla, desafiadora e também apaixonante. Se o jovem for capaz de ir fazendo o seu caminho próprio, e guiado pelos valores  humanos e cristãos, ele se torna alguém maravilhoso.

Para que o mundo não continue misterioso e tenebroso para os jovens, é preciso que haja idéias claras sobre a educação. O que? Por que? Para que? Como? São perguntas que nos devemos colocar sobre o sentido do caminho a percorrer na educação.

A educação compreende várias dimensões. De acordo com os documentos da Igreja, e os apelos da realidade, abraçamos sete dimensões que devem estar presentes na educação de um jovem cristão:

  1. Psico-Afetiva

  2. Místico-Teologal

  3. Conscientização Política

  4. Preparação Técnica
  5. Recriativa e Lúdica

  6. Ecológica
  7. Vocacional

Ao longo do tempo, fomos criando formas e meios de realizar cada dimensão.

Psico-afetivaDimensão Psico-Afetiva

Trata-se de favorecer o crescimento do jovem no seu processo de personalização e integração. A personalização é orientada pela pergunta: "Quem sou eu?” A integração refere-se ao crescimento harmonioso na relação do jovem com os outros e com o mundo, socialização.

É importante que qualquer pessoa cresça se descobrindo, tomando consciência do que é, conhecendo os seus limites e as suas possibilidades, assumindo a sua realidade de ser histórico, em transformação. Ter uma visão clara de si mesmo é condição fundamental para ser livre. Para entregar a vida, para viver a vida, cada um deverá saber o que entrega, o que doa, o que tem para oferecer. Desse modo, eu me faço sujeito livre, responsável, consciente.

A personalização tem como base a confiança, a justa auto-estima, que gera a esperança e cria condições para a autonomia, a iniciativa, a produtividade, a identidade, até chegar ao nível da sabedoria, em que o jovem adquire uma estrutura interior que lhe permite enfrentar os desafios da vida.

“Eu sou pessoa” - é a profissão fundamental da vida. Vivo, luto, sofro, me alegro, caminho, choro, danço, conquisto, me faço gente, num processo de crescimento que implica risco e muita emoção. Até chegar a "caminhar sobre as próprias pernas" tendo muito que descobrir, que experienciar. Mas preciso ter consciência de ser eu.

A integração trata de ajudar a pessoa a se sentir livre, solidária e participante, sem inferioridade com os outros.

Cada pessoa se faz em relação com os outros, desde o ventre materno e das primeiras relações familiares até à entrada na sociedade geral. Mas essa relação pode ser traumatizante, de modo a não favorecer uma integração satisfatória; desta maneira o jovem não se sentirá vivendo como igual e numa relação de fraternidade e reciprocidade. Esse processo se desenvolve através da participação na escola, no emprego, na vida pública, política, social, até que o jovem atinja um cabedal que lhe dê cidadania, com o exercício de seus direitos e deveres.

Além disso, o jovem vive uma época de sua vida de grandes descobertas no campo sexual e afetivo, pelo namoro, na emancipação do ambiente familiar, na descoberta de uma gama infinita de sentimentos, emoções e afetos que se jogam de maneira espontânea no crescer natural da vida; esta fase, altamente explosiva, desperta para uma tomada de consciência mais plena do “quem sou eu” e do “como sou eu com os outros”.

O campo da afetividade constitui o centro da pessoa, e nesse caso, a integração afetiva é fundamental para organizar as restantes energias do jovem de maneira que ele se torne feliz.

Místico-teologalDimensão Místico-Teologal

O "quem sou eu" só se integrará e conhecerá suficientemente se descobrir o sentido da sua existência.

A dimensão místico-teologal dá o sentido da existência do jovem cristão. Sendo a dimensão típica do crescimento na fé, deve favorecer que o jovem se descubra como criatura amada de Deus, e chamada a viver de acordo com o Seu projeto. Ele o amou, criou e faz viver. Desse chamado resulta a resposta da vida que se torna vocação, porque entendida e vivida numa relação de aliança com Deus, Pai-Filho-Espírito Santo.

A liberdade do jovem se liberta na relação criativa e criadora dele com Deus, que passa a ser a rocha da sua vida. Este ser rocha se fortifica pela experiência de Deus que o processo de caminhada deve favorecer para o jovem.

É preciso também que o jovem saiba dar razões de sua fé, de sua esperança do seu viver, de acordo com a experiência de fé vivida na Igreja.

Jesus Cristo, os sacramentos, a Palavra de Deus, a visão cristã do mundo, da política, da sexualidade, da criação, o que diz respeito à nossa fé, devem ser apresentados ao jovem para que sua vida se estruture em cima dos valores que brotam de Deus.

A vida é desafiadora. Para ser apóstolo e cristão comprometido na transformação do mundo, é necessária uma dose muito grande de mística, gerada pela vida divina na pessoa do jovem. E esta mística deve ser alimentada pela partilha e celebração de vida, em Igreja, através da solidariedade, da festa, da fraternidade e na ação conjunta da experiência da fé, para salvação e libertação.

A dimensão místico-teologal desenvolve o ser do jovem em Deus e o torna missionário, consciente dos valores do Evangelho e do seu significado no mundo.

Consciência PolíticaDimensão da Consciência Política

Não nascemos para ver a banda passar. Nascemos para participar, para fazer parte da banda, para transformar a música da banda.

Ser sujeito histórico faz parte da nossa vocação de pessoa e de cristão. Fazemos parte de um povo e da humanidade e nos sentimos caminhando juntos, com pessoas próximas a nós ou distantes de nós.

A consciência política é uma forma de consciência evoluída. Os jovens aprenderão a ser atores e não consumidores. O amor só pode ser também um amor político que encara a sociedade como uma sociedade organizada em sistema de idéias e ações, fins e meios políticos. A construção da fraternidade e da justiça para o acesso de todos aos bens da Criação é uma tarefa de qualquer pessoa e muito mais de um  cristão que tem como utopia a construção do Reino de Deus. Não podemos ficar ao lado da História, vendo a dignidade ser pisada e nos escondendo.

A participação política precisa de preparação e estudo. O nosso mundo é violentamente organizado, cientificamente estruturado, num sistema onipresente e dominador. A luta política é uma luta desgastante dos ideais e das pessoas, das atitudes místicas.

A dificuldade de conjugar a fé e a luta política é real. A tentação de eficácia acaba fazendo entrar numa atividade política sem valores e objetivos dignos. Essa dimensão política é extremamente exigente e necessária, numa sociedade injusta, de cristãos ausentes da coisa pública. Não há sentido do bem comum, como bem comum e da ação política como serviço do povo. Os jovens têm papel importante para o nascimento de uma atividade e de uma classe políticas que tenham futuro para o país.

A participação nos corpos e associações intermédias - sindicatos, organizações comunitárias, associações de alunos, partidos políticos - e a conscientização do voto, são formas de participação política dos jovens.

Preparação TécnicaDimensão da Preparação Técnica

Uma boa caminhada é aquela em que a pessoa aprende a caminhar.

Também, numa boa caminhada de grupo, o jovem aprende a trabalhar. O grupo se faz multiplicador, capacitando as pessoas para fazer, aumentando o poder de ação de todos. A preparação técnica faz-se na própria caminhada do grupo e através de momentos específicos. Por muitos dons que tenha o animador, é sempre necessário este tipo de preparação, pois a realidade a enfrentar é desafiadora.

É muito difícil trabalhar numa relação de diálogo e crescimento, aberta à criatividade e à liberdade. Não existem comportamentos neutros. Na educação, cada comportamento, gesto, tem um sentido e provoca um sentido. Daí que a pessoa do animador tem que ser muito consciente do jeito que quer imprimir à sua ação.

Para que os jovens criem um progresso autônomo, que seja realizado e sustentado por eles, é necessária esta dimensão. De outro modo, ficarão sempre dependentes, pois não saberão fazer. A preparação técnica é a capacitação para a ação, a formação metodológica e pedagógica. Dizia alguém que "não há nada mais prático do que uma boa teoria", um animador tem que ter objetivos claros e saber utilizar meios conseqüentes  no seu trabalho. Se a pergunta "quem sou eu?” é importante e a questão do sentido também o é, o "como fazer" é igualmente fundamental, pois é o que permite colocar em ação o processo de evangelização, que de outro modo permaneceria infrutífero e sem pernas para andar.

RecriativaA Dimensão Recriativa ou Lúdica

Cada vez mais se torna necessário, na sociedade competitiva e asfixiante, criar espaços que contemplem o despertar criativo da pessoa. Esses espaços podem ser de lazer e/ou de recriação, onde seja desenvolvida a dimensão da gratuidade.

É a dimensão que desperta o gosto pela vida, sem a opressão do tempo ou da obrigação de produzir. É o nível da oferta da vida, que se desenvolve como dom de liberdade e criatividade. Música, artesanato, jogos, lazer, pintura, outras atividades manuais, teatro, caminhadas... onde a vida se faça oferenda e se realize só pelo gosto de ser, de ser gente, de ser alguém, numa relação de convivialidade com os outros, as coisas, Deus e consigo mesmo.

Essa dimensão é a aprendizagem do prazer de existir, da beleza de ser pessoa sem encargos e sem os pesos da obrigação. Esses espaços de gratuidade são cada vez mais escassos e muitas vezes tomados como perda de tempo.

É a ilusão da eficácia, do fazer, da produção. É preciso aprender a fazer pelo simples gosto de fazer, de ser. Quando se dá importância à pessoa como pessoa, necessariamente esses tempos aparecem no processo da vida.

Também na educação é necessário desenvolver o lúdico e o recriativo da vida, que simplesmente tem valor porque é, porque é vida.

EcologiaDimensão da Ecologia

Sabemos como o mito do desenvolvimento criado pela idolatria da razão instrumental e técnica trouxe mais pobreza e desigualdade em vez de igualdade e justiça; sabemos igualmente como esse mito colocou em perigo o futuro da terra e da Humanidade, pela fabricação de armamentos e instrumentos de destruição.

Os rios tornaram-se grandes esgotos, e as matas florestas de fumaça industrial. O "crescei e dominai a terra"  foi realizado sem ética, nem humana, nem ecológica. E hoje impõe-se uma ecologia humana e uma ecologia da natureza. Os rios poluídos ou as cidades, selvas de cimento cheias de mendigos e indigentes, são problemas, em primeiro lugar da humanidade,  que os fabricou assim, não sabendo gerar um desenvolvimento harmônico.

A Educação Ecológica é uma dimensão da Educação Integral. Pertencemos à grande Criação de Deus e nela encontramos nossos símbolos e referências de vida, como num espelho onde o amor de Deus se faz presente a nós. Entrar em comunhão com a vida não se faz sem esse ato de acolhimento à Criação; isso exige o desenvolvimento da sensibilidade, da ternura, do cuidado e do reconhecimento  da dignidade de todas as coisas criadas. Pessoas, animais, ervas do campo, águas, a natureza inteira, os astros,... aspiram a uma relação de harmonia e de respeito, pois todos os seres possuem a sua liberdade e dignidade. O posicionamento ecológico exige que todos abracem a luta para irradiar da terra o espectro da fome e da miséria, das desigualdades sociais e das injustiças.

A sensibilidade ecológica começa a se manifestar pela atenção às coisas que nos rodeiam, as nossas casas, os lugares da nossa existência, poderão se tornar espelho do nosso caminho, de harmonia com a criação, dom de Deus. Se nem a planta que tenho no meu jardim, que a minha mãe plantou, sou capaz de aguar, como poderei falar de sensibilidade ecológica? É contradição falar em ecologia se as únicas flores que tenho em casa são flores de plástico.

A Criação, a gente a recebeu de Deus como dom, cabe a nós ajudar a criar um espírito de fraternização universal com tudo o que foi criado.

Além disso, é preciso ver qual o sentido do desenvolvimento, e que meios são por ele utilizados. A ética deve impor-se sempre.

VocacionalDimensão Vocacional:

É a dimensão da descoberta do sentir-se chamado à existência, querido e amado por Deus, e a ser pessoa para viver um projeto de comunhão com Deus e com tudo o que Ele criou, favorecendo que cada jovem descubra o seu lugar no mundo e assuma formas de vida cada vez mais responsáveis pela transformação, até à doação de si mesmo, como resposta ao Chamado, para que todos cheguem à liberdade de Cristo, no amor. Acreditamos que a melhor definição de pessoa humana é: alguém que é chamado/a. Esta definição permite-nos compreender a nossa vida na sua totalidade, desde o princípio, o meio e o fim. Viemos de Deus, vivemos em Deus, caminhamos para Deus. Deste modo, vivemos com o olhar voltado para Deus que nos chama e em relação com nossos irmãos e irmãos e com a Criação. Contribuímos com a riqueza que Deus nos concedeu. E sentimo-nos um no universo criado por Deus.

 

 

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