
“Como o Pai me amou assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor”. (Jo.15,9)
“Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.(Jo.15,12)
“Eu estou no Pai e o Pai em Mim”. (Jo.14,11)
“O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome vos ensinará tudo”. (Jo.14,26)
“Compreendereis que estou no Pai e vós em Mim e eu em vós”.
“Quem me ama será amado por meu Pai. Eu o amarei e me manifestarei a ele”. (Jo.14,21)
“Se Alguém me ama, guardará minha Palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada”. (Jo.14,23)
“Quando vier o paráclito que vos enviarei de junto do Pai, o Espírito da verdade, que vem do Pai, ele dará testemunho de mim. E vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio”. (Jo.15,26-27)
“Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós” (Jo.17,21)
“Para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade”. (Jo.17,23)
.Somos convidados por Jesus a entrar no círculo da amizade da Trindade para participar dessa vida de amor e aí permanecer. O Pai ama Jesus e Jesus ama o Pai e, como Jesus nos ama, também o Pai nos ama; e o Espírito que é amor amado no Pai e em Jesus completa o fluxo da liberdade do amor de Deus e também o Espírito nos ama nessa corrente da amizade do amor de Deus. Mais do que estar conosco, Jesus nos revela que nossa vida é estar na própria amizade de Deus. Somos convidados a entrar neste círculo de amor para saborear a vida em abundância, para sabermos quem somos, para assumirmos nossa identidade, o nosso ser, para sermos. O Ser é Deus, é o Amor, é a Trindade Santa, em contínuo amar, movimento e ação de amor. “Como tu Pai, estás em mim e eu em Ti, que eles estejam em nós” (Jo.17,21).
.Repito a palavra AMOR em dois tempos, no ritmo da respiração, inspirando e expirando, A – MOR, iniciando com a respiração profunda, consciente, mais demorada e, caindo depois para uma respiração inconsciente e tranqüila, como de criança dormindo. A repetição da palavra AMOR, vindo e indo, me coloca dentro de uma corrente de bondade. Sinto-me percorrido de bondade e de paz e isso me dá uma experiência de harmonia e de integração do ser. Deus é amor e revela-se presente. Perco a consciência da respiração, pára a repetição da palavra AMOR e fica só a experiência de bondade, ternura, harmonia e integração.
.Procuro tomar consciência de Deus como Trindade, Pai e Mãe, Filho e Espírito Santo, e imagino que posso entrar dentro de Deus, para aí permanecer. Fico descalço para que o meu caminhar seja leve, simples e suave. Busco a ternura, para amar. Deus é luz, percebo a luz, nada pára a comunicação da luz, a comunhão da luz. Deus é Amor, nada impede a fluência do amor dentro de Deus. Deus é Vida, nada segura a vida dentro de Deus. Sinto-me permanecendo dentro da Trindade, passando do coração do Pai para o coração do Filho e sendo envolvido pelo calor do Espírito. Percebo que tudo é bonito e bom e maravilhoso de ser. Me deleito. Sinto-me re-criado dentro de Deus, feliz, sereno. (Na verdade não existem espaços, não existem jardins para passear, não existem flores para cheirar, mas é como se existissem.) Existe a experiência do Ser, na comunhão do amor que me faz feliz e me dá pertença. Percebo que Deus passeou dentro de mim, para que eu provasse o seu amor.
.Percebo o ser de Deus na História. Procuro voltar de novo ao coração de Deus Trindade e vejo Deus intimamente envolvido na História humana. O seu olhar está voltado para nós.
A Criação inteira saiu, transbordou do Amor imenso de Deus, como se fosse a água de uma nascente sem fim. Percebo Deus, Pai e Mãe, chamando tudo à vida, na sabedoria do Filho, no qual todas as coisas foram criadas, com o sopro do Espírito que tudo vivifica. Me percebo também criado pelo mesmo Deus, chamado à vida, feito ser e sendo ainda feito, num momento intenso de amor.
.Percebo Deus, Trindade Santa, olhando a criação oprimida, a presença do mal e a ausência da vida, a liberdade escrava, o pecado estruturado nas organizações sociais, o sofrimento, os caminhos perversos da Humanidade. E, dentro da Trindade está um movimento de amor para a libertação e salvação da Humanidade: o Pai volta-se para o Filho Jesus; Jesus se oferece para chegar até nós e fazer Deus ainda mais presente; o Espírito confirmando e disposto a acompanhar Jesus na sua entrega pela Humanidade. O Amor de Deus faz-se História, Deus revela-se como presença de amor libertador. Percebo todas as coisas, a Criação inteira habitada de amor. Em cada partícula mais minúscula a chama do Amor da Trindade, iluminando o ser de tudo. O universo é a casa de Deus, “a casa de meu Pai”.
.”Compreendereis que estou no Pai e vós em mim e eu em vós”.
Me sinto na História, como se acordasse no meio de irmãos, tendo tudo fluido do amor de Deus e tudo se fazendo da mesma raiz, da mesma verdade e liberdade. O mundo transparece: a beleza, a verdade, a bondade, a ternura se fizeram carne. A riqueza de Deus é ação de amor: somos frutos dessa riqueza. Na Trindade somos irmãos, vida que brota da Vida, arte do Amor. “Se nos amarmos, Deus permanece conosco” (1Jo.4,7-12).
.A contemplação do interior da Trindade mostra que o interior de Deus é fluência, onde não há nada que prenda ou crie bloqueios. Tudo corre livre na liberdade do amor, com a alegria do vento alegre que se expande. Deus é amor livre, liberdade do Amor. Nasce e cresce dentro de mim o grande desejo de ser livre, de poder caminhar na liberdade do vento, no chamado do amor. Quero trabalhar meus mecanismos interiores que me colocam numa atitude defensiva frente à vida, meus bloqueios, meus medos, meus apegos que me fazem girar à volta de mim mesmo. Quero me auto-transcender no amor de Deus. Quero me deixar amar, para saborear o amor e amar. Quero centrar minha vida em Deus.
.Contemplando a Trindade, percebemos como nossas escolhas influenciam a vida, fazem nossa vida vazia e correndo para o sem sentido. Tanto investimento de nossas energias orientado por uma inteligência míope que não entende o essencial; por um coração cheio de ilusões que precisa aprender a amar o que é capaz de libertar e de gerar amor na nossa fome de amar; e tantas ações da vontade fruto de escolhas equivocadas iluminadas por modismos e dominadas por pressões de tantas circunstâncias perversas. Se fazemos a vida ser alienante e alienada, se estamos fora do ser livre, se produzimos situações que nos desviam de uma vida digna e feliz, também é certo que podemos sair desse circuito.
Pe. José Luís, CSh