“Com justiça verei a tua face; ao despertar eu me saciarei com a tua imagem” (Sl. 17,15)
Todos os dias de manhã, pelas seis e vinte, passa na rua de nossa casa, alguém assobiando. Será homem, será mulher, será um rapaz... Pode ser um operário que a cada dia faz seu ritual de ida para o trabalho. Pode ser uma dona de casa que passa para comprar o pão de cada dia. Pode ser um adolescente, de mochila nas costas, carregando o desafio de um dia de estudo. Pode ser alguém idoso, a caminho da praça, para fazer caminhada. Seja quem for, vamos chamar-lhe “o homem do assobio”. É alguém cheio de esperança e voltado para a vida, para o amor. O homem do assobio toma conta do espaço com o seu “glória, aleluia”, alternado com “então minh’alma canta a ti, Senhor, tão grande és Tu, tão grande és Tu”, sinais de coração feliz e de peregrino na fé.
Nesse momento, do outro lado do muro, estamos celebrando a eucaristia, em nossa capela do lava-pés. Certamente, o homem do assobio não sabe que está entrando em nossa comunhão. Que nossa oração seja livre, como a liberdade do assobio, e cheia de gratidão, como a alma deste companheiro anônimo, que com seu sopro, entra em nossa casa.
É um dom acordar com o coração voltado para a vida, feliz pelo novo dia, sentindo-se vivo e agradecido, voltado para Deus, fonte de vida. “Posso deitar-me, dormir e despertar, pois Javé é quem me sustenta”. (Sl.3,6)
À nossa volta e misturados em nossa eucaristia existem muitos sons. Os carros passam apressados e ruidosos; as pessoas conversam a caminho de algum lugar; os pássaros também já acordaram e não conseguem esconder sua alegria; o vento desperta o coração; o sol mostra a presença de cada um. Nesse horário, o dia já nasceu e o povo já acordou. A vida se levanta e se manifesta. Sentimo-nos no meio da vida, na comunhão da vida, celebrando a presença de Jesus encarnado e ressuscitado, no coração da História. Tornamo-nos solidários com a vida e pegamos nossos materiais de construção da sociedade nova.
“A capela do lava-pés é redonda, símbolo das relações do poder-serviço, do amor serviço: Deus está no centro e as pessoas sentam-se de frente umas para as outras, na igualdade e na fraternidade. O centro rebaixado é a bacia do lava-pés. Aproxima-te do poço e bebe. Sacia tua sede. Lava teus pés no serviço da libertação. Jesus assumiu a condição de servo e deu a vida por nós. O altar está no poço, pois da Eucaristia nasce a vida nova do Reino: a liberdade da gratuidade do amor, o dom de doar a própria vida. Nas rodas que sustentam a Palavra e a Eucaristia, está simbolizado o dinamismo transformador do Reino. O sacrário contém todos os rostos, pois em Cristo, todos temos um rosto, de filhos e filhas de Deus e, em Cristo, formamos o rosto libertador e amoroso de Deus. A simplicidade nos convida a sentar no chão do tijolo à vista e na esteira de palha. No bambu aberto, a natureza nos abraça, na comunhão do amor de Deus. A tenda e o sol são símbolos da itinerância da Comunidade Shalom, pelo chamado a acampar no meio dos jovens, para evangelizar. A cruz é o sinal da encarnação e da ressurreição de Jesus, duas nascentes da Comunidade Shalom.”
Há muitas maneiras de despertar: despertar sozinho ou ser despertado por alguém; despertar repousado ou cansado; despertar confiante ou cheio de medo; despertar generoso ou despertar “enrolado” em si mesmo. Depois do despertar vem o levantar: preguiçoso ou disposto; sonolento ou cheio de energia; querendo ficar na barriga da mãe ou assumindo a aventura de viver; querendo colo ou querendo ser sujeito de um novo amanhecer. Pela maneira como despertamos e nos levantamos e iniciamos o novo dia, podemos perceber se já nascemos ou não, se já somos nós mesmos ou se ainda somos o outro, se somos livres ou dependentes, se temos vontade desenvolvida ou atrofiada: se já somos nós mesmos ou não.
Despertar é nascer de novo. A cada dia temos a oportunidade de dar à luz a nós mesmos. A pessoa dependente tem dificuldade de acordar e levantar, conta cada segundo para ficar deitada, até ser arrastada para fora da cama, por pressões externas ou internas. A pessoa livre comanda seus atos; acorda e assume a vida com vontade, liberdade e entrega, sinal de que já nasceu e está integrada na vida.
O homem do assobio tem um sopro feliz. Ele não respira, simplesmente: ele é inspirado. Deus sopra em nossas narinas o sopro da vida, para que sejamos seres vivos, pela sua Vida. (Gn.2,7) O homem do assobio sopra a vida do seu universo interior no universo exterior. Ele sente-se vivo, nasceu, é ele mesmo, tem respiração própria e lidera a vida por onde passa. Não é apenas mais um na Criação, ele enriquece a vida. Ele nasceu, tornou-se si mesmo, descobriu seu sopro criador e assumiu o encanto da vida, na comunhão com o grande Outro, fonte da vida, e com o outro seu irmão. “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt.5,7)
“Despertem cítara e harpa que eu vou acordar a aurora” (Sl. 57,9)
1.Continue este texto, expressando sua experiência sobre o acordar e o levantar.
2.Cante baixinho, para você mesmo/a: “Ó luz do Senhor, que vens sobre a terra, inunda meu ser, permanece em nós”.
3.Reze, respirando, a palavra de oração “Fonte de Vida”, ou outra que realize a comunhão com Deus.
4.Perceba seus sentimentos: Como é o seu acordar e o seu levantar? Você sente a vida como peso ou como libertação? Descubra a importância da vontade na conquista do dia-a-dia. Que mudanças você precisa operar em você para que sua vida seja prazerosa? De onde vem o sentimento de encantamento?
5.Leia e medite a Palavra de Deus:
“Desperte! Desperte! Revista-se de força, Sião! Vista a roupa de festa, Jerusalém, cidade santa! Sacuda a poeira, levante-se, Jerusalém escrava! Tire a coleira do pescoço, escrava filha de Sião”.(Is.52,1-2)
6.Caminhando com Jesus
O homem do assobio é um convite a assumir a ressurreição em nossa vida.
“Nesses dias, Jesus foi para a montanha a fim de rezar. E passou toda a noite em oração a Deus. Ao amanhecer, chamou seus discípulos, e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos”. (Lc.6,12-13)
“Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus bem de madrugada, quando ainda estava escuro. Ela viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. Então saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo que Jesus amava. E disse para eles: «Tiraram do túmulo o Senhor, e não sabemos onde o colocaram.»” (Jo.20,1-2)
“Quando amanheceu, Jesus estava na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. Então Jesus disse: «Rapazes, vocês têm alguma coisa para comer?» Eles responderam: «Não.» Então Jesus falou: «Joguem a rede do lado direito da barca, e vocês acharão peixe.» Eles jogaram a rede e não conseguiam puxá-la para fora, de tanto peixe que pegaram.” (Jo.21,4-6)
Pe. José Luís, CSh