
Quando D. Aloísio vinha a nossa casa, sentíamos a personificação da bondade. Era um homem grande e simples, com o coração de profeta.
Sentou-se à nossa mesa e falou de coisas novas e velhas, bebeu o nosso vinho e rezou conosco.
Chegou com a alegria de quem chega, trazendo o infinito no peito. Era um homem da altura da lua, com as faces rosadas do tempo novo.
Esteve no nosso meio como se fosse um de nós, e como se não fosse. Ele não era um de nós e nos ensinou a ser mais do que nós.
Ensinou-nos a simplicidade e a festa, o abraço caloroso e o compromisso da solidariedade, e disse-nos que se a Igreja não é campo de libertação dos oprimidos, a Igreja está fora do Reino de Deus.
Ele trazia o anseio de fermentar a terra de paz e justiça. Disse-nos que é preciso celebrar a vida dos pobres, com os pobres. Liturgia sem vida está longe de Deus e a vida sem conversão aos pobres está longe de Deus.
Ele disse-nos que não podemos esquecer o mundo novo e a nova cultura e a cor da esperança que lhes está no sangue. Ensinou-nos que o nosso tempo precisa de um suplemento de espiritualidade.
Viver com os pobres e os jovens é aprender a ser mais pessoa, aprender a escutar antes de falar, viver antes de celebrar, acolher antes de ensinar.
O Evangelho é Bem-aventurança, é opção pelos pobres, é a radical pobreza de Deus no meio da humanidade.
Toma a Palavra de Deus e come-a. Vê como é doce e amarga, como é forte e habitada de fragilidade, como é amor libertador, sinal de contradição e fermento.
Descobre a maravilha de viver na liberdade, de ser filho de Deus, de ser pão e vinho, palavra e sonho, fraternidade.
Em janeiro de 1983, D. Aloísio aprovou canonicamente a Comunidade Shalom, como Sociedade de Vida Apostólica. Assim, em Fortaleza-Ceará-Brasil, era assumida pela Igreja uma experiência de Vida Religiosa que começara a dar os primeiros passos em Huambo-Angola, no ano de 1974.
Em 22 de abril de 1984, dia da Ressurreição de Jesus, D. Aloísio aprovou as Normas da Comunidade. A vida de D. Aloísio está na nossa vida e a nossa vida está na de D. Aloísio.
O Padre Luís Carlos tinha chegado ao Rio de Janeiro em 13 de Agosto de 1975, vindo de Angola. E, no dia 14, foi à CNBB apresentar a realidade de Angola, para que a CNBB pudesse apoiar os padres que viriam de lá.
Nesta ocasião, o Pe. Luís Carlos conheceu D. Aloísio e D. Paulo Ponte, e foi convidado para trabalhar no Nordeste.
Em 7 de janeiro de 1976, a Comunidade chega a Fortaleza e é acolhida por D. Aloísio em sua casa. Na chegada, D. Aloísio estava no aeroporto e ele mesmo ajudou a carregar a bagagem para o carro.
Os primeiros trabalhos de Evangelização dos jovens aconteceram na diocese de Itapipoca.
Em 30 de março de 1976, a Comunidade fixou residência na rua Olavo Bilac, n. 1364, na capela de S. Judas Tadeu. O Movimento foi iniciado em várias paróquias de Fortaleza, S. Gerardo, António Bezerra, Pirambu, Bela Vista, e outras...
D. Aloísio acompanhava a Comunidade, pois colocava nela a esperança da Evangelização dos jovens. Frequentemente ia a nossa casa e falava para nós.
A Comunidade trabalhava com a juventude e com várias pastorais, através da pedagogia da educação libertadora. Esta pedagogia favorecia um processo de base, a Igreja a partir do povo, a Igreja das CEBs, a Igreja da Comunhão e participação tão querida de D. Aloísio, voltada para a libertação dos pobres.
D. Aloísio ordenou vários padres da Comunidade: Tomás, José Luís, Vítor, Domingos e Afonso, às vezes indo a Portugal onde falava aos jovens e participava de atividades promovidas com a sua presença.
A última vez que esteve falando para nós, como Comunidade, foi no dia primeiro de fevereiro de 2005, na Tabuba, cheio de esperança e alegria. Foi um grande testemunho para todos. Os mais novos não o conheciam pessoalmente, mas todos ficaram conquistados pela sua sabedoria, bondade, alegria, esperança, profetismo, proximidade e simplicidade. D. Aloísio encantava. Era um homem livre, atualizado, um homem de Deus, dialogante e capaz de compreender o incompreensível.
D. Aloísio é a presença do humano construído pela bondade de Deus.
Dom Aloísio faleceu no dia 23 de dezembro de 2007.
A Comunidade Shalom rende graças a Deus pela sua vida.
Pe. José Luís, CSh