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Pe. VitorPe. Vitor

Vinte e cinco anos de ordenação

Vinte e cinco anos!... Parece que foi ontem que D. Aloísio Lorscheider impôs as suas mãos sobre mim fazendo-me parte do ministério sacerdotal…

Ministério… serviço…. O Senhor tomou conta da minha fragilidade, para me fazer Sua presença, sinal visível do seu amor no meio das pessoas, de modo particular no coração dos jovens.

‘O Senhor pôs os olhos na humildade da sua serva’ (Lc. 1,48), canta Maria. E eu canto com ela a alegria de me sentir chamado, consagrado, enviado… a alegria de me sentir amado e aprender a amar; de me descentrar de mim para ser n’Ele;  de entender e assumir que, afinal, Ele é o centro do meu viver, a razão e o sentido do que eu sou; que a minha vida só vale n’Ele.

Sou padre! E, olhando para estes vinte e cinco anos, posso perceber que nada perdi quando decidi deixar terra, casa, família; que nada foi aquilo a que renunciei diante do muito que recebi:  “recebereis cem por um!” E, de facto, as alegrias vividas ao longo destes vinte e cinco anos, a alegria da disponibilidade e do serviço constante, fizeram-me sentir mais pessoa, ajudaram-me a ser eu próprio, participante activo e consciente de um projecto que, sendo de Jesus Cristo, eu assumi como meu, ou melhor, senti-me eu plenamente integrado nele, dando-me a ele de alma e coração. Valeu a pena deixar tudo; pôr de lado os meus sonhos pessoais; renunciar tantas vezes a coisas que me pareciam essenciais para ser simplesmente o que sou.
Quis o Senhor que eu exercesse o meu ministério na Comunidade Shalom e nela me pusesse especialmente ao serviço da evangelização dos jovens. Engraçado: quando andava na escola primária e por lá passavam os missionários combonianos motivando à vocação missionária, a minha resposta era sempre a mesma: “eu quero ser padre de uma paróquia”. De facto, desde a minha primeira infância, desde que me conheço, que eu sinto dentro de mim esse apelo a ser padre. Foi uma marca que o Senhor deixou em mim, posso dizê-lo, desde o ventre de minha mãe. Claro que não foi fácil deixar, menino ainda, o conforto da casa materna e adaptar-me à fria disciplina do seminário menor. Mais difícil, porém, foi sentir, uns anos mais tarde, fecharem-se as portas nas minhas costas, numa confusão tremenda de quem se sentia chamado e ao mesmo tempo rejeitado… Viria a entendê-lo quando, em terras de Angola, o Senhor me guiava por veredas e ravinas, fazendo-me amadurecer através de experiências menos gratificantes, é verdade, mas nem por isso menos enriquecedoras: foi, por exemplo, o serviço militar, que de modo algum fazia parte dos meus projectos, mas por onde o Senhor me fez passar para me mostrar caminhos novos. Foi exactamente nessa altura que conheci a Comunidade Shalom que, então, dava os primeiros passos em terras de Angola. Aí se reacendeu o sonho de ser padre, não já numa paróquia como pensava em menino, mas padre para os jovens e no meio dos jovens. O Senhor queria-me simples e pobre; amigo e próximo; desprendido e itinerante. E isso eu posso ser na Comunidade Shalom. Bem-hajas, Luís Carlos, pelo sinal de Deus que foste na minha vida. A ti devo, em muito, o padre que sou.

Quando me perguntam de onde sou, respondo, por graça, mas também com muita verdade, que “sou de Santa Maria de todo o Mundo”. De facto, os três continentes por onde o Senhor quis que eu fizesse caminho, marcaram-me com outros tantos nascimentos:

África, Angola: ali nasci para a vida e ali fui tocado pela abertura ao mistério e à simplicidade;
Europa, Portugal: aqui fui baptizado e aqui me senti chamado ao sacerdócio. Nos contrafortes graníticos da Serra da Estrela aprendi a ser forte, a não me deixar intimidar diante das dificuldades; a ser determinado nas decisões;
América, Brasil: ali fui ordenado sacerdote. No meio do povo pobre e simples do Ceará, aprendi a gratuidade no serviço, a alegria na disponibilidade, a esperança nas dificuldades, a liberdade no ser igreja…

Ao olhar para estes vinte e cinco anos, certamente percebereis que nada há de mérito pessoal e em muito pouco vos servirei de modelo. A fidelidade à vocação devo-a, em muito, à vossa oração e presença amiga, mesmo nos momentos de solidão. Sabeis bem como não tem sido fácil para mim, que tenho vocação comunitária, viver sozinho e, sobretudo, não ter, tantas vezes, com quem partilhar sonhos e vivências... A missão, por um lado, e a oração, de modo particular a eucaristia diária, por outro, têm sido a minha força e a razão do meu entusiasmo.

Sonhos e desafios para o futuro? Tenho muitos:
Com os jovens: vocês são o centro da missão que o Senhor me confiou. A vocês quero destinar o melhor de mim mesmo. Quero continuar a caminhar ao vosso lado, partilhando dos vossos sonhos, mas sempre como presença amiga, desafiadora e interpeladora. E há dois desafios que eu queria deixar-vos hoje:

O primeiro, que alguns de vocês se disponham a doar um tempo da sua vida ao Movimento e à Comunidade, vindo partilhar a nossa vida, na nossa casa. Foi, sem dúvida, uma riqueza muito grande a experiência que dois jovens fizeram na Comunidade. Creio valer a pena que outros se disponham a dar-lhe continuidade, abrindo-se a novas perspectivas de ser igreja.

O segundo é um convite à permeabilidade do coração ao apelo de Deus: ser padre, ser religioso/a, concretamente na Comunidade Shalom… Porque não? Porque não olhares a Comunidade Shalom como uma possibilidade para ti? Comunidade Shalom como estilo de vida alternativo… Porque não?!

Para os adultos: contem comigo. Estou disponível para convosco fazer processo. Vocês, com as vossas responsabilidades profissionais e familiares, poderão ser um testemunho fantástico para os mais novos. Mas eu peço-vos mais: que façais do Movimento de adultos um espaço de crescimento e compromisso de igreja para o nosso tempo.

A todos os que vieram dar graças comigo, bem-hajam pela vossa amizade e especialmente pela vossa oração. Peço-vos que continueis a rezar por mim, para que eu permaneça sempre fiel à vocação e possa ser para cada um de vós o sinal da presença do Emanuel (Deus connosco).

Vítor Lopes - CSh

vitor@comunidadeshalom.org

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