
Thomas Stearns Eliot, ou simplesmente T.S. Eliot, poeta modernista e discípulo de G.I. Gurdjieff, afirmava em um de seus poemas: “O tempo presente e o tempo passado/ estão ambos presentes no tempo futuro/ e o tempo futuro contido no tempo passado.” A partir desse sábio trocadilho analiso a participação do Movimento Encontros de Jovens Shalom na construção de homens e mulheres cristãos da minha geração.
Conheci o MEJs Shalom ainda na década de 1980. E o meu conhecimento deu-se através de duas formas distintas, mas comuns naquele tempo: um convite feito por uma jovem da minha rua que fazia parte do grupo, respondido prontamente por minha mãe com um gélido “não”; e, dias depois, o convite no final da missa do 1º Encontro Inicial na Paróquia Nossa Sra. da Assunção, em Fortaleza, pelo então seminarista José Luís. Minha mãe acabou cedendo e iniciei em uma tarde de domingo uma longa caminhada...
Ouvi incontáveis vezes: “O Movimento é escola para a vida”. Quando se tem quatorze, quinze anos, isso não parece ter muita lógica: afinal, já não estamos vivendo? Mas era à vida de adultos que os padres, seminaristas e encontristas se referiam. Para essa vida estávamos sendo preparados porque nós seríamos os adultos, os homens e as mulheres do Terceiro Milênio.
E como foram formados esses adultos? À moda antiga — respondo. Com disciplina e muito amor. A exemplo dos primeiros cristãos, tínhamos tudo em comum. E foi no Movimento que experimentei o que é partilha além da que vivia em minha família. Como era estudante e não ganhava dinheiro, por várias vezes, na hora de negociar as taxas de participação em cursos ou encontros, algum jovem, anonimamente, já pagara por mim.
No Movimento conheci a veracidade da passagem bíblica: “Quem encontrou um amigo encontrou um tesouro”(Eclo 6, 14). Não amigos de palavras, mas amigos como Pedro, Paulo, Madalena que mesmo com seus defeitos se tornavam divinos pelas atitudes revestidas da caridade fraterna. Foi um amigo que tendo se inscrito no mesmo vestibular que eu e não tendo passado, foi cedinho me oferecer o jornal em que constava minha aprovação e celebrou comigo como vitória dele; foram amigos que quando experimentei a dor da doença e mais tarde da morte de minha avó me visitaram inúmeras vezes e lá ficavam sem precisar falar nada, apenas consolar...
Foi no Movimento que aprendi a definir com clareza meus pensamentos. Espiritualidade é a cristã. Valores cristãos são os que devem nos mover. Ou seja, não bastava dizer que se tinha espiritualidade ou que se cultivavam valores.
O Movimento ensinou a mim e aos demais do nosso grupo que toda escolha traz consequências. Ter essa consciência é usar o livre-arbítrio. Por isso, cansávamos de ouvir o que hoje circula como novidade nas redes sociais: “Furar fila, não devolver troco excedente, querer tirar vantagem do outro em qualquer situação é tão grave quanto a corrupção de qualquer um dos políticos que condenamos”.
Um Movimento sem meias palavras, em que o Sim era Sim e o Não era Não. As palavras do Pe. Luiz Carlos, fundador do Movimento e da Comunidade Shalom, nunca nos escandalizaram, mas ecoam (tenho certeza) na vida de muitos daquele tempo. Na noite de Natal era costume: “Entre fezes e urinas nasceu o Salvador. Para se tornar um como nós, exceto no pecado”. Isso servia para nos lembrar a urgência de nos reconhecermos humildes, frágeis... embora preciosos aos olhos de Deus Pai-Mãe que decifrávamos nas noites de papo-cabeça com o Pe. Vítor, sob a lua, à beira da piscina, em que criavam peixes, no antigo Sítio São Francisco.
Uma Igreja serva. Livre. Pobre.
Quando pouco se falava em missão, o Movimento nos apresentou o rosto da Igreja de Jesus Cristo: uma igreja a caminho, que vai onde o jovem está. De Paracuru a Belo Horizonte as distâncias não eram limites, mas pontos de partida e de chegada. Íamos na simplicidade dos que acreditam que o tesouro não era o vaso de argila(II Cor 4,7). Íamos e chegávamos cantando, às vezes bem desafinados, com pouco dinheiro, mas com criatividade e ousadia.
Nossa formação foi pautada por frases que iriam determinar o nosso jeito de agir: “Quem não vive para servir não serve para viver”; “Ama e faze o quiseres. O serviço é a explosão do amor”(Santo Agostinho). E isso era colocado à prova nas equipes de serviço de cozinha, de limpeza, no tempo gasto com leituras, com partilha de textos, ensaios de peças teatrais, cânticos... tudo para melhor servir ao jovem, presença latente de Jesus Cristo, futuro da Igreja. Afinal, éramos jovens evangelizando jovens.
“Não se ponha o sol sobre a ira de vocês” — era outra frase conhecida dos chamados “Encontrões” — textos escritos pelos padres e animadores dos EIs, embasados na Palavra de Deus, nos documentos da Igreja e em livros rigorosamente indicados para esse fim — a frase em evidência fazia parte do Encontrão sobre Sacramentos e era usada quando os padres falavam sobre o Matrimônio. No entanto, a dita frase não se restringia aos casais, mas se aplicava aos nossos humanos conflitos. Sim, não era um Movimento de anjos, mas de pessoas jovens que discutiam, discordavam, teimavam e, na maioria das vezes, antes que a lua aparecesse, o perdão era concedido mutuamente.
No Movimento experimentamos a correção fraterna em avaliações, que longe de ferir a autoestima, impulsionava-nos a irmos adiante. Um clamor à liberdade, “a fazer o bem, jamais o mal”; a não nos contentarmos com alinhavos... E essas atitudes não passavam despercebidas fora do ambiente pastoral. Não podia ser uma encenação, e por isso, um dos critérios para qualquer serviço em encontro era impreterivelmente: testemunho cristão, pois segundo os que nos acompanhavam, a transformação da sociedade ocorre nas famílias, escolas, faculdades, locais de trabalho, ônibus e não entre os limites das reuniões ou em celebrações. Ser sal e luz no mundo(Mt 5, 13-16) – era o compromisso do Encontrista, através de três ações: leitura e meditação diária da palavra de Deus, plena Eucaristia dominical e ação pessoal.
Quando estou nas missas do Movimento/Comunidade e vejo tantos jovens, penso: “Um dia eles perceberão o quanto o Movimento fez diferença na vida de cada um deles”. Também penso, quando estamos reunidos, eu e meus amigos daquele tempo (porque hoje ainda somos amigos, compadres uns dos outros), que o Movimento cumpriu bem o seu papel. Éramos jovens, não tínhamos, ainda, aquilo que a filosofia alemã chama de Weltanschauung, não tínhamos uma visão de mundo, estávamos afirmando o nosso caráter, o nosso jeito de estar no mundo, mas conseguimos chegar até aqui fiéis a tudo que vivemos na “Escola para a Vida” e, como disse alguém “a memória dá-nos as raízes; a esperança oferece-nos as asas para voar”. Shalom!
Rejane Nascimento
Revisora Textual
rejanasc@gmail.com
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