Formas e Etapas

Pe. José Luis

Na vida de oração, podemos identificar quatro formas ou quatro etapas: a oração de fórmulas, a oração reflexiva, a oração contemplativa, a oração do ser. Estas formas poderão coincidir com as etapas de nossa vida: a infância, a juventude, a idade adulta e a idade madura. Todas estas formas contêm umas às outras, mas cada uma é caracterizada pela predominância ou das fórmulas, ou da razão, ou da contemplação, ou do ser. A oração de fórmulas é típica da infância, mas pode predominar ao longo de toda a nossa vida; a oração reflexiva situa-se melhor na juventude, mas pode predominar pelo resto de nossa vida; a oração contemplativa é própria da idade adulta, mas é certo que existe um grau de contemplação em todas as idades; e a oração do ser é a maturidade da nossa vida em Deus, mas em todas as idades somos em Deus e Deus é em nós. Percebemos bem quando o poço não tem água; ou quando está buscando a água própria; ou quando a água é abundante; ou quando a água sacia e nos faz amar de abundância de amor. O poço não sabe que tem água (fórmulas); o poço busca a água própria (oração reflexiva); o poço encontra a água viva (oração contemplativa); a água do poço é divina (oração do ser), liberdade em Deus, vida em Deus.

A oração de fórmulas

Muitos de nós fomos iniciados na vida de oração através da oração de fórmulas. E quem não recorda ainda hoje, as orações que aprendeu na infância, num ambiente de carinho e de fé? As fórmulas são sínteses da nossa fé, expressões intelectuais da experiência da fé do povo de Deus, feita ao longo dos séculos. Nossa memória gravou-as, fruto da repetição e do ambiente afetivo e religioso em que foram decoradas. Durante a vida, vamos assumindo e fazendo a experiência da riqueza da fé que as fórmulas contêm. E percebemos que se permanecermos nas fórmulas através dos anos, nossa vida de oração não é plenamente nossa. Precisamos fazer experiência para que o nosso poço tenha água própria. A permanência nas fórmulas nos leva ao ritualismo, ao legalismo, ao utilitarismo, à oração interesseira. E, ainda mais do que isso, em vez de vida de fé, nossa vida será de crenças. Na oração de fórmulas falta o sentido crítico e contemplativo, o distanciamento de si e da realidade, a alteridade, o si mesmo e o outro, o conhecimento e a iluminação da própria história de fé. Permanecemos imersos num ambiente religioso, mas não sabemos bem qual é o nosso lugar. Através das fórmulas colocamo-nos diante de Deus como diante de uma totalidade inquestionável e intocável. Aprendemos as fórmulas com alguém que tem valor para nós e em quem confiamos, mas não somos capazes de provar o significado e a profundidade do que acreditamos se não fizermos a nossa experiência de fé. O poço não sabe que é poço, não tem água própria ou não sabe que tem. Somos como a samaritana antes de abandonar o cântaro (Jo.4,28). Na oração de fórmulas predomina a memória de conceitos e não a memória de acontecimentos. A memória de acontecimentos envolve mais o nosso ser que a memória de conceitos. As fórmulas permitem que celebremos juntos nossa fé, como povo.

A oração reflexiva

Chega o momento em que precisamos fazer nosso o que recebemos. A memória vai ser substituída pela razão. Já não nos chega a experiência dos outros, mas queremos fazer a nossa própria experiência. Queremos ser autônomos e responder nós mesmos por aquilo que acreditamos e vamos tendo consciência de ser. É na adolescência e juventude que se desenvolve em nós a oração reflexiva. A razão procura conquistar o mistério da vida e de Deus. Perguntas, dúvidas, questionamentos, certezas... um caminho percorrido em favor da conquista de nossa identidade. Agora, mais do que receber, queremos fazer nosso, compreender; mais do que acolher, queremos conquistar. Sentimo-nos capazes de tudo. Queremos ver tudo claro. Neste momento, ainda não percebemos que a vida nos foge das mãos. A razão traz consigo o desenvolvimento do sentido de justiça. E a justiça traz junto de si a retribuição: se rezamos, queremos ficar bem. Não aceitamos caminhar no silêncio e na ‘ausência’ de Deus. Encaramos mais a vida como resultado, como sucesso, como produção. Buscamos técnicas de oração, experimentamos uma e outra, para ver a que dá mais resultado. Aprendemos a cobrança. Vivemos não da gratuidade, mas da justiça e da cobrança. Ainda não sabemos que a vida de oração é, sobretudo, acolhimento e gratuidade. Acaba que a oração nesta etapa é cheia de altos e baixos, inconstante, muito dependente de nossas conquistas, de nossas descobertas, de nossas realizações, de nosso bem ou mal estar. O poço quer beber a própria água, pelo próprio esforço. A água está nele, mas o poço ainda não saboreou a água que lhe é dada. Ainda se satisfaz mais com a água própria de seus sentidos, de seus gostos, de suas qualidades, com a gratificação de suas tendências, de suas energias inatas. Deus ainda não é uma pessoa amorosa, mas acima de tudo uma idéia que é preciso compreender, uma lógica que dá certo. A oração reflexiva é própria do moralista, do apologeta, do que tem a ilusão de saber tudo, do que gosta de ensinar o outro, do que divide a realidade em bons e maus. Enfrentamos as contradições da vida com o fio da razão e brigamos com todo o mundo e queremos transformação. E quando esta não acontece, segundo o que pensamos, acabamos desanimando. Mas é na juventude que descobrimos e aprendemos a amar um conjunto de valores que assumimos como nossos e que serão fundamentais à nossa vida e que farão parte de nossa identidade. Valores humanos e sobrenaturais, valores vocacionais, próprios do caminho de vida que escolhemos, dos papeis sociais que assumimos, do jeito próprio de sermos no mundo, de seguirmos Jesus Cristo. Escolhemos seguir Jesus pelos valores que ele representa, mas precisamos crescer mais na intimidade com esses valores e com a sua pessoa. Esta fase de nossa vida tem também o grande dom de nos colocar em contato com a Palavra de Deus: refletimos a Palavra, estudamos o texto, tiramos conclusões, partilhamos em grupo, conhecemos as palavras e as ações de Jesus. Isto é um grande ganho para toda a nossa vida. Precisamos conhecer as palavras e as ações de Jesus, para irmos crescendo na intimidade com a sua pessoa e entrando no coração da Trindade.

A oração contemplativa

Se na etapa anterior predominava a razão, agora predomina o coração, a afetividade, a contemplação. A grande mudança da vida espiritual acontece agora: deixar de viver a partir de si mesmo, de suas energias naturais, do que é agradável, para viver a partir de Deus, da fé. Contemplar é ver, estar, sentir, amar, saborear, é uma relação de presença amorosa. Nesta etapa, própria da pessoa adulta, Deus é ‘Pessoa’, Pessoas da Trindade Santa. Descobrimos que a vida não é uma linha reta, um raciocínio, uma conclusão, mas um desafio de ser, mistério. O contemplativo aprende a acolher a vida com o pecado e com a graça. A contemplação integra o bem e o mal, como constituintes de nossa vida. Chegamos à presença do mistério de Deus e do nosso próprio mistério. Aprendemos a colocar-nos diante da vida como mistério. A melhor maneira de lidar com o mistério é a contemplação. Mais do que conquistar a identidade, agora, queremos crescer na intimidade, na capacidade de comunhão com a pessoa de Jesus que nos leva ao coração da Trindade; intimidade com o que escolhemos viver, nosso caminho, nossos valores, nosso processo de vida. A justiça é superada pela gratuidade e pela misericórdia. Descobrimos que tudo é graça em nossa vida e que tudo nos foi dado. Vamos assumindo a nossa vida como dom. Descobrimos e aprendemos a misericórdia e nos tornamos misericordiosos. Isto nos enche de grande liberdade. A relação pessoal é livre, é descoberta, é fascínio, é encontro de duas liberdades. Queremos crescer na liberdade de Deus que nos fascina por sua beleza e por seu amor. Da cobrança por resultados, passamos agora a querer acolher a abundância do ser de Deus. Mais do que questionar, agora queremos entregar-nos. Deixamo-nos conquistar e entregamos o nosso ser, para ser mais no Deus pessoal que nos abre perspectivas sem fim. Entregar-se é palavra chave para compreendermos o nosso processo de oração e de vida. Enquanto não houver entrega ao Senhor, nosso caminho será titubeante e inconstante. Vencemos as inconstâncias pela entrega da vida. É uma entrega na fé, fruto da descoberta de um Deus que nos conquistou levando-nos ao deserto, à solidão e à provação. Nossos desânimos vão desaparecendo. Aprendemos que a descoberta do outro e do Grande Outro é feita através de ausência e presença; conseguimos suportar as ausências na fé e com o sentido da purificação do nosso ser. Unimos nosso ser ao ser de Jesus encarnado, morto e ressuscitado. Provamos a essência. O poço tem água. Mesmo nos silêncios de Deus o coração acredita e caminha no mistério. E se abandona em Deus.

A oração do ser

Nosso chamado de vida é amar com “todas as nossas forças”. É o tempo da oração do ser, próprio da pessoa madura, que não precisa de argumentos, nem de estímulos, nem de muitas palavras, nem de técnicas, nem do sentir-se bem ou mal. Interessa viver em Deus, ser em Deus, respirar em Deus. As memórias agora não são de fórmulas aprendidas, mas de acontecimentos de uma história de vida que se confrontou com o ‘paradoxo’ de viver, e com um Deus que se revelou como amor, comunhão do Pai, do Filho e do Espírito, e que se vai revelando ainda mais. É a memória curada, que recorda a vida como história de salvação. A razão foi conquistada e deseja sê-lo sempre mais pela beleza infinita do mistério. O coração ama o Senhor na abundância da experiência de amor. Todo o nosso ser sente-se acolhido por Deus e se abandona em Deus. Nossa vontade torna-se livre em Deus, busca o que é de Deus, entrega-se à ação de Deus. Fomos crescendo na liberdade de ser em Deus. Fomos modelados por Deus. Agora não é apenas estar na presença, mas viver na comunhão. E, ainda mais, ser na experiência do amor de Deus. É viver buscando o que Paulo diz: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”.(Gl.2,20) Nosso ser inteiro sente-se unificado por aquele que pode reunir todas as nossas forças. Reconciliamos nossas fraquezas e riquezas, nosso passado, presente e futuro. Fazemos a experiência que une o princípio e o fim de nossa vida. Somos. ‘Em ti, eu sou’. “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm.8,35) Vivemos em Deus. Nossos medos foram sendo vencidos. “No amor não há medo.” (1Jo.4,18) O desejo de Deus é constante, um desejo abundante de amor, a alegria de viver, a serenidade, a confiança, a entrega, a missão de ser presença paterna e materna, amiga e fraterna de Deus, presença criativa e libertadora. O mal não consegue destruir este ser alicerçado em Deus. E vivemos pelo bem, na humildade e na simplicidade, buscando o Reino. Doamos nossa vida, naquele que se doou até à morte de cruz. E temos a solicitude e o empenho em favor da libertação dos oprimidos. Nossa ação é livre e libertadora. Não vivemos de emoções, nem de caprichos, nem de gostos pessoais, nem para agradar a quem espera de nós; vivemos porque respiramos amor e vida em Deus, o amor e a vida de Deus. Vivemos da abundância do amor, não de carência. Amar de amor. O poço tem água, a água viva do Espírito, a água da liberdade do Espírito. A água não seca, a vida é sempre nova e cheia de encantamento. Não se trata de estar em Deus, com Deus, mas de ser em Deus.

Todas as nossas forças

Quem se dispõe a amar a Deus deverá estar disposto a amá-lo com todas as suas forças. Viver na presença de Deus significa viver um processo de transcendência em Deus. Deus é a grande Liberdade que abre caminho maior para a nossa liberdade. Deus é amor infinito e nele teremos sempre um amor maior para buscar e viver. Viver em Deus abrange todo o nosso ser, unifica as nossas energias: a memória, a inteligência, o coração, a vontade, a afetividade, a liberdade, a ação... todas vão se integrando num ser harmonioso e cheio de graça. Só Deus tem capacidade para nos fazer amar com toda a riqueza e com toda a fraqueza do nosso ser.

O emocional

O nosso tempo é caracterizado pela busca de emoções. As ilusões do emocional são muitas e fortes e parecem dar-nos a certeza da experiência de Deus. Mas nossa vida de oração não é consistente se não formos integrando através dela a nossa inteligência, a nossa vontade e a nossa afetividade. A pessoa que vive de emoções ou na busca de emoções não ama, não escolhe na liberdade, não permanece. O sentimental não ama, não resiste, permanece apenas naquilo que lhe agrada. Nossos estados emocionais podem levar-nos a abandonar a relação com Deus. As emoções precisam ser integradas pela razão, pelo afeto, pela ação.

A Palavra e o Pão e o Lava pés

Nossa vida de oração bebe da intimidade com a Palavra de Deus e com a Eucaristia. A Palavra é a liberdade criadora de Deus no concreto da História. Jesus não é uma emoção. É História íntegra: razão, ação, afeto, o amor do Pai, libertador e salvador, liberdade que se entrega e entrega livre que gera liberdade. Contemplar isto nos emociona e apaixona, mas não podemos ficar na emoção. Aprendemos isto na entrega do pão e do vinho, Jesus partilhado para a vida do mundo. Se nos desligarmos da Palavra e do Pão, da Eucaristia, nossa oração pode tornar-se intimismo, subjetivismo, emoção. Mas não basta manter-se ligado na Eucaristia. Há tanta gente que transforma a Eucaristia num jogo de emoções, que explora a fé como emocional, como fonte de ilusões, como intimismo, como subjetivismo.

A Comunidade

Existe um caminho para tornar a nossa vida verdadeiramente de Deus: é o caminho do testemunho e do compromisso numa comunidade de fé e na sociedade. Este caminho nos ajuda a purificar a fé, a viver as contradições da vida à luz da fé, a desprender-nos do perfeccionismo, do subjetivismo, do voluntarismo, do intelectualismo e do racionalismo, da onipotência, nos leva a assumir a solidariedade como forma de caminhar, a fraternidade, a igualdade, a fragilidade e tanta riqueza do nosso ser e dos outros. A liberdade e a entrega são duas características do nosso ser em Deus. Liberdade e amor nos constituem.

Certamente, sempre teremos o desafio de integrar o emocional, a razão, o afeto e a vontade; sem esta integração, nossa oração será sempre fragilizada, nosso ser fragilizado. Teremos o desafio de integrar o individual e o social; o desafio da descoberta de si mesmo e do outro e do Grande Outro; o desafio de encarar a vida como processo; de aprender a viver superando crises que são próprias do nosso crescimento; o desafio de conhecer e assumir a história pessoal e de a unificar, reconciliar, integrar, pela presença de Deus nela; o desafio de permanecer na presença e na ausência, na luz e na escuridão, na alegria e na tristeza. Deus nos acompanha sempre. E nosso ser em Deus é crescente para a generosidade de Deus, para a fidelidade de Deus, para a liberdade de Deus, para a entrega de Deus. Não seremos plenos, nem totalmente nós, se não reconhecermos a dignidade do outro e do Grande Outro, nas suas transcendências.

Pe. José Luís, CSh

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