Pe. Erick Rastelli, CSh.
Tenho um problema com cores. No início, quando ainda criança, isso foi um problema, sobretudo na escola. Nunca pintava o céu ou as árvores com a “cor certa”. Depois descobriram que eu era daltônico.
Mas aquilo sempre me causou confusão porque vinham logo com as perguntas básicas sobre o vermelho e o verde, que, ao meu jeito, vejo-os muito bem, desde que não venham juntos em bolinhas! Dado que sempre acontecia o mesmo quando alguém descobria que eu era “daltônico” – o inevitável jogo do “Que cor é essa? E aquela outra?” - perdendo-se por aí um bom e confuso tempo, porque eu acertava algumas que a princípio um daltônico erraria de cara e errava outras que até um cego veria, acabei por arrumar uma estratégia para escapar disso tudo. Eu mentia! Quer dizer, eu omitia minha “deficiência” e arriscava com toda a convicção as cores do mundo.
Claro que isso me acarretou outros tantos problemas como uma fase em que tinha um guarda-roupa praticamente todo verde, achando sempre que comprava roupas marrom ou caqui. Depois de muito penar, acabei por descobrir que, afinal, eu não sou daltônico! Descobri um nome muito mais sofisticado para minha “especificidade”: tenho agnosia de cores!
Em outras palavras, eu vejo as cores, distingo-as, mas não as memorizo, ou seja, nunca sei se o verde que eu “enxergo” numa camisa, por exemplo, é verdadeiramente verde, a não ser que compare com outra coisa que eu já sei que é verde mesmo, como as folhas das árvores. Ou então, se alguém me diz que algo é vermelho eu busco na minha memória algo que eu saiba que é vermelho, como a roupa do papai noel (ou pai natal, como dizem os lusitanos). E quando me dizem que algo é roxo... eu digo que é da cor da Quaresma.
Desde criança o tempo da Quaresma me intriga e, confesso, teve uma época em que me empolgava mais que o Natal. Na Quaresma tudo fica diferente. Aqui no Nordeste do Brasil não temos o privilégio da distinção clara das estações do ano, mas, no Ceará, onde nasci e me criei, a Quaresma coincidia sempre com a época das chuvas. Para outras pessoas isso talvez não seja muito importante, mas para nós, nordestinos é fundamental.
Para se ter uma idéia, um dia nublado é, para nós, um dia bonito. Imagine-se então um dia chuvoso. Como nem sempre começavam as chuvas com o início da quaresma, ficávamos esperando... e, quando o dia amanhecia escuro, nebuloso é porque a chuva estava chegando. Esses dias para mim, tinham a cor de Quaresma.
Por isso que fazendo memória hoje, é bem possível que muitos céus pintados na minha infância fossem roxos. E quando esperamos a chuva, não ficamos de braços cruzados. Apesar de sempre ter vivido na cidade, sei que é tempo em que o homem do campo lavra, sob o sol inclemente, a terra dura e pedregosa do sertão e semeia na esperança da chuva que está por vir – o homem do campo sempre tem esperança que a chuva venha! Na cidade também nos preparávamos... é época de comprar guarda-chuvas, verificar o telhado para garantir que não haja goteiras em casa e, para nós crianças, tempo de comprar bilas (ou bolas de gude), porque a terra fica macia para brincar depois que chove.
Mas outras coisas ficavam diferentes: as missas – os cânticos mudavam, não se cantava o Glória nem o Aleluia, fazia-se mais silêncio (inclusive me lembro de levar um ralho do padre numa dessas missas de Quaresma porque estava conversando e rindo com outras crianças perto do altar). E, com o passar dos anos, fui percebendo, justamente na Quaresma, porque, se não podia conversar, prestava mais atenção, que os evangelhos mudavam de um ano para o outro, mas contavam a mesma história e que essa história terminava justamente na época mais festiva do primeiro semestre, a Páscoa.
Entretanto, isso tudo tinha uma cor, era roxo! Então, antes mesmo de compreender, teorizar e teologizar sobre a Quaresma, eu já sabia que era um tempo de espera, ou melhor de esperança. Por mais que a terra estivesse seca, por mais que se fizesse mais silêncio, por mais que se falasse ou cantasse menos... tínhamos a esperança que algo de muito bom estava para acontecer. E mais, sabíamos que o que, naquele momento parecesse desagradável, ia acabar.
Com o tempo fui entendendo que é justamente isso que celebramos na Quaresma: o necessário recolhimento e a indispensável revisão para que tudo o que está por vir nos encontre a postos e preparados. O que está por vir é por demais bom para ser banalizado, daí a importância de uma atitude diferente.
Só aprendemos a valorizar o som, por causa do silêncio, assim como a luz que só pode transformar algo que ainda esteja escuro. Por tudo isso, que sinto o recolhimento ao qual a Quaresma nos convida como algo extremamente positivo. A Páscoa que iremos celebrar a seguir é branca e é linda... porque a luz do Ressusitado vem para preencher nossas escuridões e assim, os cânticos, glórias e aleluias que inundam nossos corações aquietados fazem sentido e encontram pleno significado.
Tudo isso porque antes foi Quaresma e ela tem cor: roxo.
«Pessoa, imagem e semelhança da Trindade
Pe. Erick