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Pe. ErickPe. Erick Rastelli, CSh.

SOBRE RELIGIÃO & CIÊNCIA

(palestra proferida no debate Religão & Ciência promovido no Seminário Colóquios Filosóficos da UFMG em 16 de Abril de 2010)

Conta-se que por, ocasião da visita do Dalai Lama ao Brasil, num debate com o Leonardo Boff, este teria perguntado ao Dalai Lama: "Qual a melhor religião?". Na certa, ele esperava que o Dalai Lama respondesse que era o Budismo. Entretanto, o mesmo responde: "A melhor religião é aquela que te faz bom!". Intrigado com essa resposta, Leonardo Boff foi mais fundo: "E o que é ser bom?", ao que o Dalai Lama respondeu: "Ser bom é ser mais compassivo!".

Bem, apesar de ser católico e padre, não sou um apologeta, por isso não pretendo falar para defender ou justificar a minha religião, muito menos para apontá-la como a melhor etc. O importante aqui é buscar compreender o porquê da religião, das religiões em si como fenômeno humano.

Podemos fazer uma analogia da religião com um ônibus – serve para conduzir até onde queremos chegar. Ninguém entra num ônibus para morar nele (a não ser o Chris McCandless, o cara do filme "Na Natureza Selvagem" – mas aí o ônibus já não é, não funciona mais como ônibus). Pois bem, assim como o ônibus, religião é meio, nunca o fim! Quem entende a religião como um fim em si, fica cego. É como aquela parábola:

O mestre falava para seus discípulos que a religião é como o dedo apontando para as estrelas. O objetivo é mostrar o brilho das estrelas, mas tem gente que não consegue enxergar para além do dedo. E o pior, tem gente que fica obcecada com o dedo ao ponto de chupá-lo devotamente; ou ainda mais sério, tem gente que usa o dedo para arrancar os próprios olhos ou daqueles que ousam querer enxergar mais longe.

As religiões são instituições e, como tão, dão segurança – as pessoas precisam sentir-se seguras. No entanto, como qualquer instituição, as religiões correm o risco de se cristalizarem. Aí, há uma outra parábola para expressar o ridículo do enrigecimento institucional:

Conta-se que naquele mosteiro, havia um gato. O gato acompanhava os monges para onde quer que fossem. Entretanto, sempre que era o momento da oração, o gato acabava por atrapalhar a meditação dos monges. Assim, o superior começou a ordenar que se prendesse o gato antes das orações. Aquele superior foi substituído e seu substituto recebeu a recomendação de que era importante prender o gato antes da oração. Passado o tempo, aquele gato morreu. Os monges então arrumaram outro gato porque já era da tradição do mosteiro prender o gato antes da oração. As gerações foram se sucedendo naquele mosteiro e ainda hoje eles têm um gato que é ritualmente preso antes das orações. Há até tratados teológicos sobre o significado do prender o gato antes da oração...

Pois bem, a institucionalização traz o risco do ritualismo vazio e ainda se encontram explicações bem racionais para justificar o injustificável. Isso porque toda instituição carrega a marca do humano, do contigente, situado no tempo e no espaço, bem como traz todo o peso da história e da tradição que pesa sobre ela. Por isso, movem-se devagar!

Outro aspecto é o caráter de universalidade das religiões, no sentido de quererem englobarem a vida de todas as pessoas e contemplarem todos os aspectos da vida das pessoas – nada do que é humano está fora da âmbito religioso. Pessoalmente eu nunca vi a religião andando por aí... acontece no humano, por isso tem o que dizer sobre o humano.

O problema é quando pretende falar num nível que não está na sua competência pois as religiões surgem como meios institucionais para darem respostas a questões fundamentais da vida das pessoas, enquanto apontadora de valores, dadora de sentido... Falam sobre o "porquê" e o "para quê"! O problema foi, é e será quando as religiões pretenderam/pretendem dar respostas do "como"! Isso é do âmbito das ciências!

No entanto, a ciência, também como fenômeno humano, precisa de um sentido que a humanize, senão... imaginem uma força descontrolada que bate pra todo lado e em todas as direções... às vezes dá certo, mas é bem provável que machuque alguém no percurso.

Por isso, muitas vezes, o diálogo foi difícil. Mas não precisamos viver num mundo dicotomizado, e o pior maniqueizado, quando valoramos a diferença. Ciência e Religião são diferentes e falam diferentemente do fenômeno humano a partir de perspectivas diferentes, mas não são boas ou más por causa disso. São apenas diferentes!

Pe. Erick Rastelli, CSh.

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