Pe. Erick Rastelli, CSh.À luz da fé trinitária se enriquece a intuição da fé de que a pessoa humana é imagem e semelhança da divindade: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou.” (Gn 1,27). Somos imagem e semelhança do Deus comunidade, comunhão e participação. Espelhamos em nosso ser toda a sua riqueza.
Todo ser humano é tomado por um sentimento profundo de que é um mistério que, quanto mais conhecido, mais se abre ao conhecimento. Este mistério, entretanto, se manifesta como compreensão de si mesmo e verdade de seu próprio ser: é a própria pessoa que surge para si como inteligente e portadora da verdade de si mesma. Este mistério também se comunica e estabelece uma comunhão de amor com o outro; é a pessoa que ama e se auto-entrega.
Dessa forma, a realização suprema da vida humana é representada como participação na vida divina; a vida é a grande promessa que Deus faz ao ser humano e o supremo dom que concede a seus amigos: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Biblicamente, viver implica comungar, pois viver é sempre conviver, viver para e estar na presença de outros. É a partir da comunhão que entendemos a pessoa e também a natureza de Deus, onde se encontra o modelo final de comunhão para todos nós. Deus é comunhão exatamente porque é Trindade de Pessoas. São três pessoas e uma só comunhão e uma só comunidade trinitária.
Da mesma forma, o ser humano, apesar das diferenças raciais, sociais, culturais e sexuais é sempre pessoa em relação dentro do todo que é a humanidade. Todos, em todas as circunstâncias, continuam a ser imagem e semelhança de Deus. No entanto, essa imagem pode aparecer como que encoberta por uma neblina, uma fumaça que não permite distinguir os traços fundamentais da pessoa divinizada.
A comunhão trinitária só é possível a partir da acolhida incondicional do diferente. No que é único não existe comunhão ou comunidade, mas unicidade e uniformidade. Nosso Deus é unidade, mas é também diversidade que convive, ama e é amada. Como conseqüência, a humanidade, à imagem da trindade, também não é uniforme, mas múltipla e diversa. A pessoa é chamada a acolher o diferente, a conviver, a amar e a sentir-se amada e acolhida por ele. A “pessoa trinitária” não perde sua identidade, mas sente-se parte de algo muito maior que ela, a humanidade.
Na nossa cultura dominante impera, ao nível do conceito de pessoa, o predomínio do indivíduo, de seu desempenho isolado, de seus direitos compreendidos sem a relação com a sociedade. No entanto, compreender a pessoa humana à luz da Trindade implica dimensioná-la sempre para o relacionamento aberto para com os outros; só estando nos outros, entendendo-se a partir dos outros e sendo através dos outros que constrói sua identificação.
A Trindade existe em si, mas se abre, por amor, à relação com o diferente, com o que não é Deus, com a Criação. O ser humano é chamado, igualmente a fazer de sua vida uma expressão de amor aberto e criativo, capaz de sair de si, do isolamento, da indiferença frente aos outros. O ser humano que espelha uma imagem nítida da Trindade não fica apático ao mundo e às pessoas ao seu redor. É sensível às necessidades do outro, aos apelos da realidade social, à miséria de seus semelhantes, à injustiça que encobre ainda mais a imagem de Deus na humanidade. O ser humano autêntico assume a sua missão de co-criador, de continuador da obra de Deus no mundo, criando cultura, fazendo história, transformando as estruturas para as deixar mais de acordo com o projeto de Deus de realização plena da pessoa.
Assim, não estamos condenados a viver sós e isolados; somos vocacionados a conviver e a entrar na comunhão trinitária. Somos feitos com a capacidade e a exigência de ir nos conformando e assemelhando a Deus, a ponto de entrar, pelo conhecimento e pelo amor, na própria comunhão trinitária.
A mais dura das guerras é a guerra contra si mesmo.
É preciso chegar até desarmar-se.
Tenho lutado nesta guerra durante anos.
Foi terrível. Mas hoje estou desarmado.
Não tenho mais medo de nada, porque o amor lança fora o temor.
Estou desarmado da vontade de ter razão,
De justificar-me, desqualificando os outros.
Não estou mais em guarda, à defensiva,
Ciumentamente crispado sobre minhas riquezas. Acolho e partilho.
Não estou apegado, particularmente às minhas idéias, aos meus projetos.
Se alguém me apresenta outras melhores,
Aliás, não só as melhores, mas simplesmente boas, aceito-as sem mágoa.
Renunciei ao comparativo.l Aquilo que é bom, verdadeiro, real.
É sempre o melhor para mim.
Por isso, eu não tenho mais medo.
Quando não se tem nada, não se tem mais medo.
Se estamos desarmados, despojados, abertos ao Deus-Homem,
Que faz novas todas as coisas, Ele apaga o passado ruim,
E nos traz um tempo novo onde tudo é possível.
(Patriarca Atenágoras I)
Pe. Erick Rastelli, CSh.