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Pe. Domingos

Pe. Domingos

Felicidade

Ela está onde nós a colocamos, mas nunca a colocamos onde nós estamos.

 

Aquela menina de sete anos passeava pelo jardim, quando viu uma borboleta presa nos espinho do cacto. As asas espetadas nos espinhos, impediam a borboleta de voar... e a menina, tomada de compaixão pela borboleta, foi cuidadosamente soltando suas asas... até que a borboleta saiu voando, livre e leve, sob o sorriso encantado da menina. Mas, após um breve vôo, eis que a borboleta pousou no ombro da menina,  murmurou  no ouvido dela um agradecimento por ter salvo sua vida e disse: faça um pedido e eu lhe concederei! E a menina, na hora, pediu: eu quero ser feliz! A borboleta, solícita, falou baixinho um segredo no pé do ouvido da menina... o segredo da felicidade. E a menina foi realmente muito feliz, e teve uma juventude muito feliz e se tornou uma adulta muito feliz. Era já bem velhinha e continuava sendo muito feliz! Todos admiravam a felicidade daquela velhinha e muitos perguntavam pelo segredo... mas ela nunca revelou o segredo para ninguém.

Felicidade... o que é isso?
Todos querem ser felizes. E todos estamos de acordo, quando se trata de sua importância para  a vida.

O que pode me dar felicidade? Ou o que eu preciso para ser feliz?
Aí, certamente, as respostas já vão ser diferentes, bem diversas, de uma pessoa para a outra.
Todos estamos de acordo em buscar, mas cada um segue caminhos diferentes para buscá-la.
A resposta a estas questões, depende sobretudo da compreensão que temos do ser humano. Quem sou? O que me faz ser pessoa? Se vejo o ser humano como uma máquina, basta que suas peças estejam no lugar e que haja óleo... e ela é feliz. Se acredito que sou apenas um conjunto de celulase órgãos, basta ter água, oxigênio e comida, para ser feliz.

Quem é o ser humano?!

Carruagem

Vamos considerar os elementos desta figura: cavalo, cocheiro, a carroça e o amo.  Eles formam um conjunto que pode ser para nós uma parábola do ser humano. O cavalo pode simbolizar os sentimentos e emoções. São eles que movem a vida, a energia que empurra, arrasta e anima. O amor e o ódio, a alegria e a tristeza, a compaixão e a indiferença... sempre são a energia que está por trás de nossas ações. O cocheiro representa a consciência, os valores, o sentido da vida, aquilo que orienta a nossa vida, que dá rumo aos nossos sentimento e emoções.  A carruagem é o nosso corpo, nosso meio de transporte para andarmos pela vida, com os sentidos que nos permitem a comunicação e a construção da nossa identidade. O amo é a nossa essência, a nossa verdade mais profunda e sagrada, a nosso identidade primeira e última, que nos coloca em contato com Deus, com o EU SOU, onde nós podemos dizer também Eu Sou. Cavalo, cocheiro, carruagem e amo... formam um mesmo conjunto e não cabe estabelecer entre os vários elementos uma hierarquia de valor, que nos permita desprezar um em favor de outro. Eles precisam falar todos a mesma língua, para que o conjunto chegue a algum lugar. Sem cocheiro, as emoções ficam perdidas e sem rumo, mas sem carruagem nada adianta, assim como sem cavalo não saímos do lugar e sem amo, corremos o risco de nos perdermos na viagem, sem chegar a lugar feliz. Falar a mesma linguagem, significa aceitar o valor de cada dimensão, harmonizá-las entre si... e descobrir que tem algo que perpassa e une cada parte para dar um sentido de conjunto: o ar, o sopro, a respiração, o Pneuma, o Ruah... o Espírito. Ele perpassa o cavalo e é sua energia, anima o cocheiro, atravessa e areja a carruagem e se manifesta de modo pleno no amo. Esse sopro divino que perpassa todas as partes e as unifica, dá a cada um delas e ao todo uma sacralidade inalienável: as emoções são sagradas, como é a sagrada a consciência, como o corpo também é sagrado e como sagrada é a essência onde entramos em comunhão profunda com Deus.
Nós somos assim: cavalo, cocheiro, carruagem e amo, animados pelo sopro do Espírito que está em nós mais vai além de nós e é, independente de nós... mas que dá sentido a cada dimensão e ao todo da nossa vida. Nenhuma destas dimensões é inferior ou descartável e em todas o mesmo Espírito se manifesta e a todas diviniza. Assim somos nós... e é a partir desta compreensão do ser humano que vamos em busca da resposta pela Felicidade.
A Felicidade é a experiência desse Espírito que nos perpassa, em cada nivele no  todo que somos. Ao nível do corpo, a Felicidade é experimentada como Prazer, e isso é sagrado, pois é manifestação de Deus. Ao nível das emoções, a Felicidade tem o nome de Alegria, energia pura, que contagia. A Felicidade propriamente dita é a experiência do Espírito no nível da consciência, do nous. E o nível da Essência nos revela a experiência do Espírito como Bem Aventurança, Beatitude, Graça, Contemplação, Êxtase...

Podemos sentir Felicidade sem sentir Prazer e podemos sentir Alegria sem sentir Prazer e Felicidade ...quando entramos em contato com algo mais profundo: a dimensão contemplativa, que está voltada para o SER-FONTE.
Buscar a Felicidade... é despertar a presença da Bem Aventurança em nós: parar a flutuação, experimentar  o Shabat judaico, o estado de quietude, a Hesiqué dos gregos... o Shalom: tranquilidade do corpo, do coração, da mente, do espírito...
Quando a Felicidade é vivida ao nível da Bem a Aventurança,  ela se torna plena e livre de flutuação e é a partir dela que as outras dimensões podem recuperar e alimentar a experiência de Felicidade.

Quando o mental silencia... é o despertar; quando o coração não julga... nasce a compaixão; quando o corpo está tranquilo... vem a calma e quando o Espírito serena... é Shalom: estar inteiro. Não estamos em Paz... quando não estamos inteiros!

Entendendo o ser humano numa dimensão integral, podemos identificar vários níveis de necessidades.  A satisfação dessas necessidades interfere e colabora na construção da Felicidade.

Assim, entendemos aqui um caminho que se estendo a nossos pés: Interligar as quatro dimensões de necessidades, respeitando-as, cuidando delas de modo satisfatório...  e escutar as necessidades do outro!
A Felicidade pode ser ameaçada por qualquer uma dessas necessidades não satisfeitas. No entanto, é bom lembrar que cada uma das necessidades é infinita, não saciável. E, por isso, só o infinito pode suprir o desejo de infinito. Não podemos preencher um vazio infinito... com ‘nadas’. Dostoievski dizia que dentro de cada pessoa existe um vazio do tamanho de Deus. E, se o vazio é do tamanho de Deus, só Deus poderá preenchê-lo. Se não descubro a felicidade em mim,  nada de fora preenche.
Outra conclusão que se impõe, pesada e dura, mas também realista e libertadora, é que ninguém pode fazer o outro feliz! Nós podemos criar condições para que o outro descubra em si mesmo a fonte da felicidade, podemos dar mapas e indicar caminhos... mas só o outro pode fazer essa viagem. O melhor presente que posso dar ao outro, é eu ser Feliz. Somos espelhos e, quando eu sou feliz, estou dando oportunidade ao outro, para que ele perceba, dentro dele mesmo, a possibilidade de ser feliz também.
O desafio é para cada pessoa. Há pelo menos um lugar dentro de nós que está em Paz! Urge encontrá-lo e a partir dele saborear e alargar os espaços de paz na nossa vida. Leloup lembra que o universo confiou a cada um de nós, um pedacinho dele próprio  que nos cabe cuidar... e continua dizendo que quando você medita, pelo menos um pedacinho do universo está em paz.
Vai para ti mesmo! Torna-te aquilo que és! Vai para o Amor!  Encontra dentro de ti esse espaço onde tu és realmente! Busca e procura saborear o espçao de felicidade que existe em ti como bem aventurança original.

Os antigos Terapeutas de Alexandria, que cultivavam uma visão integral da vida e do ser humano, rezavam assim: Não há nada a temer dos Deuses! Não há nada a temer da morte! Podemos suportar a dor! Podemos esperar a Felicidade! Temos aqui, sem dúvida, um bom itinerário para a nossa felicidade!
Felicidade vem de felix, que significa fecundo, aquele que dá frutos. E essa raiz etimológica nos ensina que felicidade é tornar-se uma árvore que dá frutos. Por isso, não se pode entender felicidade num contexto individualista. Se é verdade que ninguém pode fazer ninguém feliz, também é verdade que ninguém é feliz sozinho. Vitor Frankl, coloca dois grandes pilares como condições para a felicidade: Dedicação a uma causa maior que a pessoa e rendição-abertura a outro Ser (Amor). A Ciência da Felicidade, que procura uma explicação e fundamentação científica para aquilo que experimentamos no dia a dia, fala da bioquímica da Felicidade.  O cortisol, identificado como o hormônio da depressão que, como veneno, corrói as pessoas e as adoece, é 32% menos presente em pessoas felizes. Por outro lado, o seu antídoto, a Ocitocina, que é o hormônio do bem estar, aumenta com a convivência harmoniosa. A solidariedade, a participação, o serviço, a doação... ajudam quimicamente a sermos mais felizes!

A felicidade não está na chegada, está na jornada, dizia o velho sábio do filme de Dan Millman, ensinando o jovem atleta. As metas são importantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Uma apresentadora de TV perguntou a um monge brasileiro que mora no Tibet: para o senhor, o que é a felicidade? E ele respondeu: Felicidade é você estar bem com você mesmo e com os outros, independente do lugar e das circunstâncias. E a apresentadora ainda ousou perguntar: só isso!?
Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento. Costumo perguntar aos noivos: vocês estão casando para serem felizes? Você, noiva, espera que seu noivo faça você feliz? Você, noivo, espera que sua noiva faça você feliz? E quase sempre a resposta é um sim em alta voz... e em alta voz também eu respondo: não façam isso! Vocês vão se decepcionar! Casem para partilhar a felicidade que cada um cultiva dentro de si mesmo, por sua responsabilidade única. Mas não esperem que algo ou alguém de fora vos faça felizes. Nossa tentação sempre é esperar que os outros ou as coisas ou as situações, nos dêem o que sentirmos ter faltado em nossa infância: o amor, a segurança-proteção, a valorização ou reconhecimento. E quando encontramos alguém que parece ter condição de nos dar isso... nos apegamos com todas as forças, colocamos aí nossa última esperança... e esperamos, até cairmos na frustração, quando a nossa expectativa não é preenchida... e, geralmente, orientamos contra a pessoa ou situação, toda a raiva que nasce da nossa frustração. Esquecemos que só nós podemos dar a nós mesmos aquilo que nos falta e que as pessoas, por muito que nos dêem, nunca poderão preencher essa carência em nós. Nunca é tarde para termos uma infância feliz... mas, a segunda chance, é inteiramente por nossa conta!
Quem tem por que viver, suporta quase qualquer coisa, dizia Nietzsche.  E Shakespeare falava: sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos.

Hoponompomo, a tradição espiritual dos antigos Kaúnas do Hawaí, diz que nós somos 100% responsáveis por tudo o que nos acontece. Isso não significa dizer que somos responsáveis pelo fato de um evento acontecer, mas somos responsáveis pela maneira como ele nos afeta. Somos responsáveis por nossas reações e atitudes. Responsabilidade é diferente de culpa. Responsabilidade significa eu me tornar sujeito e entender que eu posso fazer alguma coisa por isso. Se percebo que estou com raiva e atribuo minha raiva à crítica que alguém me fez... eu estou colocando no outro a responsabilidade pela minha emoção... e vou ficar esperando que ele faça alguma coisa para eu deixar de sentir raiva. Mas se eu assumo 100% a responsabilidade pela minha raiva, mesmo sabendo que o outro a acordou em mim, mas que ela é minha, então aí eu posso dar o primeiro passo para fazer alguma coisa no sentido de transformar meu estado emocional. Isso traz para nós uma responsabilidade que pesa, mas que também liberta! E como mudaria a nossa atitude perante a felicidade, se entendêssemos esse princípio: eu sou 100% responsável pela minha felicidade... e sou 100% responsável pela minha infelicidade.

Felicidade, é presença, estar aqui e agora, porque é aqui e agora que nós estamos e é aqui que podemos encontrá-la, porque ela está onde nós estamos, dentro de nós, como sempre esteve e sempre estará, à disposição para ser encontrada. Ela está sempre aqui, mas nós nem sempre estamos aqui. O presente é o lugar; a presença é a condição. No mesmo filme de Dan Millman, na cena final, quando o jovem ginasta estava segurando as argolas para começar a apresentação decisiva, o velho sábio trava com ele este diálogo: Onde estás? – Aqui! Que horas são? – agora! Quem és tu? – o presente!

Até agora você ainda deve estar curioso para saber qual foi o segredo da felicidade que a borboleta ensinou àquela menina... pois bem, a velhinha, antes de morrer, muito feliz, revelou o segredo e disse: a borboleta, quando eu lhe pedi que queria ser feliz, ela segredou no meu ouvido: tem muitas pessoas que precisam da sua ajuda.
Vai amigo, não há perigo que hoje possa assustar. Não se iluda, que nada muda, se você não mudar. Ponha alguma coisa na sacola, não esqueça a viola, mas esqueça o que puder e cante que é bom viver. Rasgue as coisas velhas na lembrança, seja um pouco de criança, faça tudo o que quiser e cante que é bom viver. OI velho hino dos Guerrilheiros do Araguaia, carrega esta consciência profunda e transformadora... e podemos terminar pensando: se esses homens, de armas na mão, acreditavam que nada muda, se você não mudar... o que nos falta para começar agora o nosso caminho pessoal em busca de felicidade e saborearmos o que dizia Gandhi: não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho!

Domingos Cunha, CSh.

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