O beija-flor de gelo

Houve um concurso de esculturas de gelo. Foram muitos os escultores que acorreram ao país do gelo, com a criatividade na ponta dos dedos e a cabeça fervilhando de intuições. Cada um pegou um bloco de gelo e sobre ele foi esculpindo sua ideia. Saíram coisas engraçadas… na medida daquilo que antes existia na cabeça e no coração de cada artista. Um festival de criatividade. Formas bizarras e coisas simples, esculturas de todos os tamanhos e obras para todos os gostos. Cada obra tinha o tamanho de seu escultor, na medida do seu coração…

Mas havia uma obra que chamava a atenção pela diferença e pela rara beleza que exibia: um beija-flor, uma pequena obra, era verdade, mas de rara beleza, ostentando um colorido harmonioso naquelas formas bem proporcionais.

Como poderia aquele escultor ter conseguido aquela obra? Como esculpir no gelo uma obra tão frágil e delicada, tão pequena e harmoniosa e, mais inusitado ainda, com aquelas cores tão reais e nítidas?

E quando as atenções se voltaram para o escultor daquela obra, rodeando sua cabeça de perguntas… ele apenas respondeu:

Na verdade, eu não esculpi o beija-flor! Quando eu comecei a trabalhar o bloco de gelo, fui percebendo que lá no meio do gelo, coberto por camadas e mais camadas de gelo, havia um objeto… e eu fui perseguindo essa forma, fui tirando pedaços de gelo, camada por camada, com muito cuidado para não danificar o objeto que cada vez ia ficando mais nítido sob o meu o meu olhar. Continuei tirando o gelo, pedaço por pedaço… até descobrir que lá no centro havia um beija-flor, imóvel, congelado num instante de rara beleza e numa postura de insustentável leveza. Meu cuidado se redobrou. Lentamente, golpe a golpe, com todo a delicadeza, fui tirando tudo o que não era beija-flor… até que este pequeno beija-flor apareceu livre, na sua forma autêntica. Na verdade eu não esculpi um beija-flor… eu apenas resgatei do gelo um pequeno beija-flor, tirando dele tudo o que não era beija-flor!

Interessante, achava o povo surpreso! Diferente e interessante! Mas, logo alguém levantou um terrível ‘mas’… esse beija-flor continua congelado, sem vida, sem movimento! E, outro mais derrotista ainda, logo avisou: logo, logo, ele vai descongelar e apodrecer! Enquanto permanecia escondido no coração daquele bloco de gelo… tinha pelo menos a proteção do gelo que conservava, embora escondida, sua beleza intacta!

Deixou de ser o centro das atenções, aquela pequena escultura. Os olhares foram ficando indiferentes… porque os olhares não poderiam jamais lhe dar o que precisava: calor suficiente para recuperar o movimento da vida…

Mas eis que um pouco depois, quando todos os olhares o abandonaram à indiferença… o pequeno beija-flor começou a sentir o calor de um raio de sol batendo em suas asas encolhidas… e aquele calor foi se espalhando e tomando conta dele e seu pequeno ser foi sentindo um calor abrasador descongelando suas fibras e, de repente, um impulso de vida fisgou seu pequeno coração que começou a bater acelerado e uma energia vibrante tomou conta de todo o seu ser! E ele sentiu a vida pulsando dentro de si e estremeceu sob o calor do sol e ousou bater as asas e saiu voando… porque o sol lhe devolvera a capacidade de voar! O escultor o libertara daquilo que não era beija-flor e o escondia no interior de um bloco de gelo… mas foi o sol quem despertou nele o milagre da vida!

Somos beija-flores escondidos no interior de grandes blocos de gelo. Vivemos no país do gelo, como bonecos de gelo, sem vida e sem comunicação, sem beleza.

A vida faz de nós esculturas interessantes, algumas admiradas, todas efémeras, porque esculturas de gelo. Mas são sempre esculturas de gelo, feitas por alguém, modeladas segundo a intenção de alguém, para servir ao objetivo de alguém.

Blocos de gelo… mas dentro do bloco de gelo, há um pequeno beija-flor. Ele ficou lá, congelado pela agruras da vida, mas permanece lá, inatacto, porém paralisado pelo gelo. Muitos passam pelo bloco de gelo e não percebem o pequeno beija-flor. São tantas as camadas de gelo, que às vezes ninguém consegue enxergar o pequeno beija-flor. Muitos deles, jamais são percebidos para além do gelo. Outros, na mão de escultores mais preocupados com a sua vontade do que com as potencialidades da matéria prima que têm na sua frente, são destruídos e jogados fora com entulho que resta do trabalho do escultor.

E quando um escultor sensível consegue perceber, por entre as camadas de gelo, o pequeno beija-flor… e acreditando na sua beleza vai tirando, pedaço por pedaço, o gelo que o cobre…aí, um dia vem à luz o pequeno e frágil beija-flor, na sua beleza e na leveza inteira, embora congelada, porém preservada.

Somos escultores de nós mesmos! Habitamos no país do gelo e temos em nossas mãos um cubo de gelo. O que fazemos com ele?!

Precisamos enxergar para além das camadas de gelo o pequeno beija-flor que nos habita, talvez inerte e paralisado pelo gelo com que a vida nos envolveu. Precisamos enxergar e acreditar na beleza do pequeno beija-flor. Resgatar sua forma. Tirar do bloco de gelo tudo aquilo que não é beija-flor, para que o pequeno beija-flor, que sempre esteve lá, apareça do jeito que é! Talvez o escultor que somos tenha a tentação de criar outro ser, diferente do beija-flor que habita no bloco de gelo… mas nada será comparável à verdade bela do beija-flor! Talvez o escultor que somos não tenha a paciência de tirar, cuidadosamente, camada por camada, o gelo que esconde o beija-flor. Talvez o escultor que somos, às vezes nem enxergue beija-flor algum no cubo de gelo. Ou talvez o escultor que somos não acredite no valor de um pequeno beija-flor escondido no meio do gelo…

Somos escultores de nós mesmos! Habitamos no país do gelo e temos em nossas mãos um bloco de gelo. O que fazemos com ele?!

Perceber no meio do gelo o pequeno beija-flor; deixar-se encantar por ele e tirar do bloco de gelo tudo aquilo que não é beija-flor…

Mas… e de que adianta um beija-flor congelado, sem vida? Melhor não seria deixá-lo no meio do gelo, que pelo menos o preserva da decomposição?! Não terá sido para se proteger da decomposição que ele se recobriu de camadas e mais camadas de gelo?! O que acontecerá com ele, desprotegido, sem gelo?!

O escultor o libertara o beija-flor daquilo que não era beija-flor e o escondia no interior de um bloco de gelo… mas foi o sol quem despertou nele o milagre da vida!

Só a experiência do Amor de Deus poderá devolver a vida ao beija-flor que nos habita. Só esse Amor incondicional é capaz de abrasar o nosso ser e resgatar em nós a beleza e a leveza que esse mesmo Amor em nós plantou como marca indelével de sua predileção gratuita!

Só a experiência pessoal do Amor de Deus, dinâmico e gerador de vida, criativo e vibrante, será capaz de descongelar as fibras de nosso ser e nos devolver a vida em toda a sua plenitude!

‘Quem congelou o beija-flor?’ ou ‘Por que o beija-flor ficou congelado?’ – será que alguém se lembrou de perguntar?

Foi a falta de amor, podemos responder. E por isso, podemos concluir: só um Amor maior pode resgatar a vida congelada pelo desamor!

Pe. Domingos

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