
O povo de Deus foi chamado ao deserto. Na aridez do caminhar foi moldando o seu coração. Purificando as suas infidelidades. Deixando-se conduzir pela mão providente do Deus da Aliança. O deserto foi caminho e condição. Caminho para encontrar-se como povo e para chegar ao lugar da Promessa. Condição de caminhar entre desafios e o sonho de ver concretizada a alegria de chegar.
Jesus foi chamado ao deserto. O Espírito conduziu-o ao deserto do discernimento. O lugar onde se tomam as decisões e os confrontos revelam a solidez do acreditar. No coração do silêncio foi tentado. Tentado pelo próprio silêncio. A aridez do deserto quis transformar-se num mar de possibilidades. A secura e a fome prometeram a abundância e o sucesso. O projecto do Reino foi desafiado pela vastidão de um deserto encarcerado dentro de um coração procurando caminhos. E o deserto de Jesus tornou-se condição. E o projecto do Reino encheu de vida o seu e todos os desertos.
Também nós somos chamados ao deserto. A Quaresma apropria-se deste simbolismo para nos propor um caminho de encontro e de aceitação dos nossos desertos. No silêncio ou no confronto rotineiro dos dias o deserto descobre-nos. Somos descobertos pela necessidade de nos encontrarmos connosco próprios. O caminho de encontro com o mais íntimo de nós é singular. Nele se misturam afectos, desejos, temores, desafios, necessidades pessoais. E também o desejo, muitas vezes camuflado de, na busca de se encontrar, encontrar o próprio centro e nele, o Absoluto que nos habita.
A Quaresma confere um rumo ao nosso deserto. Sem um rumo, o deserto é maldição. É travessia sem fim. Aridez a perder de vista. A Quaresma abre-nos os olhos para acolher o deserto que somos e que atravessamos. Atira-nos palavras de sentido para confundir as certezas da nossa travessia. Desmascara a omnipotência de querermos caminhar sem ninguém que nos acompanhe.
Chamados ao deserto e ao silêncio. Para sermos tentados. Como Jesus, somos tentados pelo silêncio e pelo deserto. Tentados pela ganância de tudo possuir. De nada partilhar. Tentados pelo isolamento de não se entregar. Tentados pelo sucesso que mina os nossos relacionamentos e empurra para o vazio do ser. Tentados pelo desejo de afirmarmos um sentido para tudo, onde Deus não tenha lugar.
Procuremos nesta Quaresma descobrir, acolher o deserto que há em nós. No silêncio ou na azáfama do quotidiano, arrisquemos no deixar-se encontrar. Deixar-se possuir pelo Amor que faz nascer rios de água viva em todos os desertos.
No silêncio orante que alicerça a opção pelo Reino e inflama a vida de sentido, centramos a caminhada quaresmal. Que ela seja como um rio que segue o seu curso para encontrar o mar. Que esse mar encha de vida o nosso e todos os desertos.

Não há flores no deserto onde tu moras
Nem a água salta por entre as pedras que pisas
Secaram as nascentes da tua vida
E o sem rumo faz-te companhia
Desde que deixaste de acreditar.
Não há flores no deserto onde tu moras
Mas é presente o deserto dentro de ti
Espaço aberto para o viço e o novo
Onde todas as fontes serão torrente
Do vinho da alegria e da fé.
Não há flores no deserto onde tu moras
Mas é convite o deserto dentro de ti
Caminho palmilhado na esperança de chegar
À terra que és e que será nova
Quando o milagre do grão de trigo irromper.
Não há flores no deserto onde tu moras
Mas o deserto é convite, caminho e presente
Dentro de ti.
Pe. Afonso