
“Os apóstolos voltaram para Jerusalém, pois encontravam-se no chamado monte das Oliveiras, não muito longe de Jerusalém: a uma caminhada de sábado. Entraram na cidade e subiram para a sala de cima, onde costumavam hospedar-se. Ali estavam Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago filho de Alfeu, Simão Zelota e Judas, filho de Tiago. Todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração, juntamente com algumas mulheres, entre as quais Maria, Mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus.” (Act, 1, 12-14).
Depois da Ascensão de Jesus a comunidade dos discípulos reúne-se na sala de cima. Estavam lá os apóstolos, algumas mulheres e também a mãe de Jesus. O grupo dos que andaram com Jesus volta a reunir-se. Voltam ao mesmo lugar, ao mesmo espaço que segundo a tradição, foi o último antes dos últimos acontecimentos de Jerusalém. Voltam ao Cenáculo, à sala de cima. É nesse lugar, familiar de todos, que a comunidade dos discípulos volta a reunir-se depois da ressurreição de Jesus e da sua Ascensão.
O livro dos Actos não nos revela o quotidiano desta primeira comunidade reunida. Entre a Ascensão e o Pentecostes. Mas podemos imaginar o efeito congregador desta sala, que volta a reunir, a unir num só coração, num mesmo sentimento, aqueles que andavam dispersos. Aqueles que o medo, o desgosto, a morte tinha dispersado. Agora une-os um mesmo sentimento e na oração preparam a missão. A comunidade que se estrutura na sala de cima reza e prepara-se para escancarar as portas. O eco dessa espera é apenas silencio.
A sala de cima é o local da espera. Da expectativa. Do aguardar que se cumpram as promessas. Jesus prometera o Paráclito. A comunidade reunida na sala de cima aguarda a expectativa dessa vinda. E nesse aguardar reza, congrega-se, une-se, junta-se num mesmo sentir.
Há muito silêncio na sala de cima. Silêncio que regenera e cura a saudade do Mestre que partira, preparando a vinda do Espírito. O silêncio habita a sala de cima. Silêncio orante que congrega corações feridos e desfaz as ilusões de poder. Silencio que antecipa e prepara o escancaramento e a explosão do fogo novo. A sala de cima prepara no silêncio e na oração o movimento na direcção do mundo.
Na sala de cima faz-se memória dos factos que aconteceram em Jerusalém… memória que se resgata, acomoda, para ser sintetizada no discurso de Pedro quando o vento impetuoso escancara as portas e faz proclamar a Palavra às nações, gritando-lhes o mistério redentor.
Podemos aprender-resgatar com a comunidade reunida a mística da sala de cima. Mística que impregnará a vida e a missão. Aprender a silenciar e não ter pressa de escancarar as portas. O silêncio fecunda as palavras a serem ditas e o anúncio proclamado leva o selo do Mistério integrado.
Aprender a congregar e a fazer comunidade. Comunidade unida nos mesmos sentimentos. Reunida para a oração. Alicerçada na eucaristia. Para que a missão leve ao mundo a cor do ressuscitado.
A mística da sala de cima faz de nós pessoas orantes, silenciosas, fecundadas pelo mistério, unidas num só coração, centradas na eucaristia, transformadas por Cristo ressuscitado.
A sala de cima abre-nos as portas para que saibamos aprender do exemplo de uma comunidade silenciosa, semente de uma rede de comunidades geradas a partir da explosão do Pentecostes.
Saibamos mover-nos entre a vida e a sala de cima. Dentro de nós mora a capacidade de constantemente “ir” à sala de cima e ali resgatarmos e fecundarmos a nossa vida.
Pe. Afonso